Todos têm razão

23 de outubro de 2013

 

O Sr. costuma citar Protágoras, que dizia: “as afirmações contrárias são igualmente verdadeiras”. O que isso significa?

Que tudo é e não é verdadeiro. Que a verdade, como as cores, admite infinitas variações.

Quer dizer que não existem verdades?

Sim e não.

Como assim?

Quero dizer que, quanto à religião, por exemplo, tem razão o ateu quando diz que Deus não existe; que é uma invenção da mente. Que tem razão o crente quando diz o contrário, que Deus precede a tudo, que é um ser não criado e criador. Que têm razão, igualmente, judeus, cristãos, muçulmanos, budistas, hindus etc., relativamente à sua fé. Que nós interpretamos o mundo segundo as nossas necessidades (Nietzsche).

Pode ser mais preciso?

Quis dizer que a verdade é sempre a “minha verdade”, a qual não exclui outras tantas. Que não existe verdade independentemente do sujeito que a percebe/produz. Que não é a interpretação que depende da verdade, mas justamente o contrário, que é a verdade que depende da interpretação.

Entendo. Mas, se todos têm razão, então, vale tudo.

Parece que sim.

Essa doutrina, radicalmente relativista, não é um tanto perigosa?

Não digo nada que não tenhamos visto e testemunhado desde sempre. Nada é perigoso em si mesmo. Tudo depende de como interpretamos e agimos.

O Sr. pode dizer o que tenho nas mãos?

Pedras.

Quantas?

Cinco (05) pedras.

Se vejo um corpo em decomposição com o tronco separado da cabeça, o que vejo?

Um corpo em decomposição, um cadáver.

Se é assim, então a verdade existe.

Existe, sim, como “minha” verdade, como “nossa” verdade. E, claro, como uma verdade humana, antropomórfica, que não vale, ou não vale necessariamente, para outros seres vivos.

Se alguém dissesse que não vê pedras, mas uma mão vazia ou que vê jaboticabas, ou que vê um ser ainda vivo, e não um cadáver, diríamos que se trata de um cego ou um louco.

Concordo; mas, ainda assim, seria uma interpretação, seria a nossa verdade, a verdade dos que se pretendem normais, contra a verdade de alguém que julgamos cego ou louco. O mesmo vale, mutatis mutandis, para a religião e outros assuntos: para um ateu radical, o crente é um louco, um tolo etc. Já, para o crente, louco é precisamente o ateu.

O Sr. compara coisas incomparáveis.

Toda comparação é de algum modo arbitrária.

Quando aplicada à religião, parece que semelhante doutrina é louvável por conduzir à tolerância. Mas, se aplicada à política, por exemplo, pode legitimar políticas de exclusão e de extermínio.

Se eu dissesse o contrário, nada mudaria quanto a isso.

O Sr. ainda não respondeu à minha pergunta…

O que eu penso sobre política fica para outra vez.

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