Se fôssemos um país sério

17 de julho de 2015

Se fôssemos um país sério, investigar, acusar e julgar figurões da política seria algo absolutamente normal;

Se fôssemos um país sério, as próprias casas legislativas cumpririam seu papel constitucional de apurar as denúncias e julgá-las prontamente, isentamente, justamente;

Se fôssemos um país sério, a política não seria um caso de polícia;

Se fôssemos um país sério, investigar criminosos poderosos não seria uma exceção, nem exclusividade da polícia federal e do ministério público federal, mas parte da rotina das polícias civis, dos ministérios públicos dos estados e de todos os órgãos que investigam;

Se fôssemos um país sério, os órgãos de investigação, notadamente as polícias, atuariam com absoluta autonomia relativamente aos investigados;

Se fôssemos um país sério, a política não seria habitat de aventureiros e criminosos;

Se fôssemos um país sério, a política atrairia os melhores profissionais de suas respectivas áreas de atuação;

Se fôssemos um país sério, não toleraríamos chantagens de criminosos do poder;

Se fôssemos um país sério, não seríamos vítimas de nossas próprias escolhas eleitorais;

Se fôssemos um país sério, teríamos instituições sérias, que não contenderiam entre si, porque atuariam em conjunto e coordenadamente;

Se fôssemos um país sério, não teríamos tribunais de faz de conta;

Se fôssemos um país sério, não esperaríamos que os outros (pessoas, órgãos e instituições) resolvessem nossos próprios problemas;

Se fôssemos um país sério, seríamos um povo sério e faríamos nossa própria revolução, diariamente, permanentemente, começando por nós mesmos.

Porque nós somos o povo, nós somos o estado, nós somos a lei, nós somos o poder político, nós somos a constituição!

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Comentários

  1. Se fôssemos um país sério, não teríamos a “operação sonho de valsa”.

    Nas palavras de Daniel Gerber:

    Sobre sonhos e valsas

    “As redes sociais não cansaram de noticiar a já famosa “operação sonho de valsa”, cujo objetivo seria arrecadar bombons e chocolates ao nobre Delegado de Polícia Federal vitimado pela ação de ousada faxineira.
    A meliante, pelo que se sabe, surrupiou um bombom de uma caixa aparentemente lotada de tal guloseima. A mercadoria era de propriedade da pobre vítima, que, graças ao intenso esforço investigativo, elucidou o crime e puniu a infratora.
    Neste momento se afirma que a paz voltou a reinar na Delegacia, com aquelas pobres pessoas armadas e representando o invencível Leviatã tranquila se sabedoras que a lei sempre vence.
    Para a faxineira, vergonha, humilhação perante seus filhos e uma demissão por justa causa.
    Poderia se argumentar algo sobre a desproporcionalidade da medida, pois movimentar-se o Estado em nome de um mísero bombom não parece ser a melhor medida, e, muito menos, o melhor direcionamento das verbas públicas utilizadas na manutenção do sistema policial.
    Quem sabe falaríamos agora do princípio da insignificância, não apenas em sua conotação de limite ao poder de punir mas, sim, como limite a qualquer ação de agentes públicos quando as próprias evidências do caso demonstrarem a desproporção entre meios e fins.
    Poderíamos falar de estado de necessidade, ou inexigibilidade de conduta diversa, ou ausência de tipicidade material. Afinal, em se tratando de Direito, podemos falar de quase tudo.
    Prefiro, entretanto, falar sobre a falta de humanidade em se punir uma faxineira pela irresponsabilidade de comer o bombom do Delegado. Sobre a falta de empatia, de compreensão do Outro, sobre a ausência de vínculos que simplesmente demonstrem sermos de uma mesma espécie.
    Não falo de questões jurídicas. Falo de preconceito. Quem pode comer o bombom do delegado? Se fosse um agente, ou outra autoridade, o problema teria ocorrido, ou sequer pensado seria?
    O que se viu foi mais uma demonstração do que significa a expressão “donos do poder”. Estamentos não se misturam, não se tocam, não se reconhecem como parte de um todo. Eles servem, nós somos servidos, e pegarem um chocolate nosso significa pegarem nossos sonhos, desejos e toda essa baboseira que nos torna “únicos”.Ao Delegado, os bombons; à faxineira, nem sonho, nem valsa.”

    Abraço,

    Sofia Coelho.

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