Por que matamos nossos pais

24 de outubro de 2007

Quando soube que Suzane Richthofen, 19 anos, educada nas melhores escolas, jovem, rica, inteligente, tomara parte no assassinato de seus pais, Manfred e Marísia Richthofen, quis saber porque alguém poderia, em tais circunstâncias, cometer tão bárbaro crime. Então, fiquei a imaginar que haveria “algo de podre no reino da Dinamarca”. Não me surpreenderia, por exemplo, que o pai, com a conivência da mãe, abusasse sexualmente de sua própria filha, a qual, por isso, passou a nutrir por ambos um ódio capaz de anular, inteiramente, o afeto que se espera existir entre pais e filhos. Enfim, buscava, no meu íntimo, uma justificação minimamente plausível para semelhante delito, até porque, no fundo, acho que isso me traria certo consolo, que ficaria menos desolado. No entanto, ao que tudo indica, nada disso jamais existiu, pois Suzane sempre manteve boa relação com os pais. Pior, consumado o brutal assassinato, e exaurido o crime com o apossamento dos bens, pretendiam, ela e seu comparsa, viver na mansão do casal vitimado, mesmo porque haviam removido o principal obstáculo ao namoro. Conclusão: Suzane fora a principal protagonista do assassinato perpetrado contra o seu pai, e contra a mulher que a concebeu, amamentou, criou, amou: sua mãe. Como entender uma tal atitude?

 

Pensando sobre isso, lembrei-me de um trecho do livro de Vera Felicidade (Desespero e Maldade), onde afirma, textualmente: “não há um bem, não há um mal; a maldade não resulta de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não é um instinto humano, não é uma ausência de Deus, não é a presença do Demônio. A maldade é a desumanização criada pelo auto-referenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos. As pessoas se comportam como se comportam em função de como se percebem, como percebem o outro e o mundo. É esta relação que estrutura o humano, que estrutura o desumano”, por isso que “a maldade, o mal, só pode ser apreendido, configurado, à medida que estabeleçamos seu contexto estruturante”. Também me ocorreu passagem de Carnelutti (As Misérias do Processo Penal), quando diz que “o delito não é mais que uma explosão do egoísmo, na sua raiz. O outro não importa; o que importa, somente, é o consigo”. Ponto de vista, aliás, que o Marquês de Sade (Filosofia na Alcova) abraçava abertamente, a pretexto de atender às (supostas) leis da natureza.

 

 

Pois bem, o “contexto estruturante”, a “explosão de egoísmo” de que falam Felicidade e Carnelutti, especialmente neste caso, é característico desta nossa sociedade de consumo, própria do modelo capitalista de produção, em que tudo, ou quase tudo, gira em torno do acúmulo de bens de consumo, e que, por isso, dá-se muito mais importância ao “ter” do que ao “ser”, porquanto “status”, “sucesso” ou “felicidade” sói significar ostentar o carro mais possante (ainda que o limite de velocidade o torne inócuo), ter o modelo de celular mais avançado (logo superado), vestir a melhor grife, exibir a melhor definição de músculos e abdômen, pousar nas colunas sociais etc.

 

Não surpreende que, numa sociedade assim concebida, em que os pais, a pretexto de criar filhos, formam consumidores vorazes e tipos mesquinhos, em que programas de TV (tão afeitos à espetacularização da violência) são mero pretexto para vender produtos, ficasse o ser humano relegado a plano secundário, constituindo um obstáculo menor no caminho de todos aqueles que aderem, irrefletidamente, a este futilíssimo e espetaculoso modus vivendi. Não surpreende, assim, que se elimine uma vida para roubar um par de tênis “nike”, que hotéis de luxo banalizem a oferta, qual mercadoria, de meninas de classe média aos seus hóspedes, que se proliferem igrejas e universidades caça-níqueis, esses novos supermercados da fé e do saber; não surpreende, pois, que, para tomarmos posse da “nossa herança”, tenhamos que matar os nossos próprios pais. Mais do que nunca, os fins justificam os meios: compro; logo, existo.

 

Não há de surpreender, enfim, que, em semelhante contexto, todo o sistema de segurança (câmeras de vídeo, alarme, muros intransponíveis) da família Richthofen viesse a se revelar grandemente inútil, pois o perigo não veio nem vem de fora: o perigo esteve e está dentro de cada um de nós. Porque criminosos e prisioneiros somos todos, mais ou menos, entre os muros do nosso egoísmo, da nossa indiferença, dos nossos preconceitos, da nossa obsessão por possuir mais e mais.

 

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