O homicida passional segundo Maitê Proença

7 de janeiro de 2009

Raios não caiem duas vezes no mesmo lugar. Às vezes. Na minha casa caíram, e assim convivi com dois homicídios, no período de minha infância, o de meu pai e de minha tia sua irmã, que, por ironia, também matou o parceiro. Tenho, portanto, intimidade com o assunto. Mais do que isso, conheço-o profundamente, já que tive de compreendê-lo para sobreviver. Nada alivia tanto quanto o entendimento minucioso dos fatos que levaram a uma dor – como em tudo, só o conhecimento traz a cura. Cheguei ao requinte de compreender melhor os crimes a minha volta do que fizeram as pessoas que os praticaram. O assassino passional não sabe por que matou, e é um erro recorrente nos tribunais querer arrancar motivos de seus réus. Eles não os têm. Destroem o núcleo de suas vidas, o grande amor e a razão de tudo, e depois choram em cima de seus cadáveres por pena de si e pela falta do objeto amado. É um processo irracional. É também autodestrutivo. Tanto assim que, via de regra, esse homicida não foge do local de seu crime, mas fica ali, não tendo mais a perder, para ser preso em flagrante. A criatura que mata por amor é alguém cuja necessidade de paixão chegou a níveis obsessivos. Ali, há um apaixonado, ávido de afeto e incapaz de renúncia. A pessoa pensa sem parar numa única coisa, na impossibilidade de ter o outro como ele precisa que o outro seja, na traição, ou em sua eventualidade. Fantasias obscuras lhe entorpem a cabeça, e não há ser sobre a terra que consiga viver com uma só idéia a lhe atazanar dia e noite, na rua, no trabalho, por toda parte, a toda hora. A tormenta chega a um ponto de ruptura, que, dali, um mínimo detalhe leva a matar.

Além do mais, há pessoas que só sabem amar na tensão, vivem às turras e assim se realizam. O sentimento tranqüilo e pacífico, que para tantos é a forma ideal, para eles nada significa – o amor tem faces múltiplas, e há aspectos que vêm com a violência embutida. Nesses casos os homens tendem a ser mais agressivos. Eles batem, espancam e se portam de forma primária. A mulher, mais sutil, observa, e, intuitiva, aprende por onde atacar. Ela finge que trai, provoca, pede dinheiro que ele não tem para dar, fere-lhe o orgulho e vai levando o parceiro à exasperação. Aí ele bate, machuca e por aí vão anos de amor e dor. Até que um dia…

Qual o ser vivo, por mais bondoso, que já não pensou na morte de uns vinte? As crianças pensam. Todos nós pensamos. No trânsito, no trabalho, nas discussões com o parceiro. O homicida ocasional não é um homem ruim, mas alguém que viveu um tumulto interior gigantesco e por ali desviou de si. Ele pode ser bom sujeito, honesto, trabalhador, pai carinhoso. Não voltará a matar, e representa muito pouco perigo para a sociedade. Deve ser punido porque em seu desvario amputou a vida de alguém e espalhou sofrimento a sua volta, mas deve também, e pode, ser compreendido. É estranhíssimo, e dificulta a compreensão saber que essa criatura não sente remorsos. A idéia de que o assassino vive numa tortura interna que lhe devora o espírito é equivocada. Em seu mundo subjetivo ele (ou ela) tinha razões para fazer o que fez. Você, com sua ética, não consegue perdoá-lo, mas o homicida não vive sequer a questão do perdão. A coisa está feita, e os limites que rompeu ao praticá-la estavam amarrados na mesma praia onde ele hoje reencontra as justificativas que lhe permitem seguir vivendo. O que outrora serviu de motivação emocional para matar, hoje é um raciocínio lógico de seu universo íntimo. Então, se essa pessoa não assassinou por motivo fútil, ela merece ser vista à clareza das imparcialidades. Por ter refletido sobre isso a vida inteira, aprendi que para se julgar um gesto apaixonado é preciso muito desapego. E que há de se ter compaixão, pois com ela não só esse crime mas qualquer transgressão humana pode ser compreendida. Não há nada mais primário e mesquinho do que enxergar os atos alheios pelo ângulo exclusivo da acusação. Não se deve pensar, aquele fez mal à minha filha. Pense antes, minha filha fez mal a alguém.

Extraído do livro “uma vida inventada”, de Maitê Proença. Rio de Janeiro: AGIR Editora LTDA., p. 63 a 65.

Número de Visitas 66

15 Comentários

  1. Eu sempre admirei Maitê Proença. Sinto por ela por carregar uma história de vida tão sofrida. Sua inteligência, sagacidade e beleza fora dos padrões não devem compensar a dor que ela carrega. Mas que bom que tudo isso deu a ela, pelo menos, a visibilidade necessária para fazer com que suas impressões possam repercutir pelo mundo.

    Mais uma vez, PQ, agradeço a vc por ser sem preconceitos e sempre nos trazer pensamentos abertos a respeito de temas humanos relacionados ao Direito Penal.

    Adorei o texto.

  2. …ao coração do delinqüente, que, para saná-lo, deveremos chegar. Não há outra via para chegar, senão aquela do amor. A falta de amor não se preenche senão com amor. “Amor com amor se paga”. A cura da qual o encarcerado precisa é uma cura de amor¨
    Podemos aplicar as lições de Francesco Carnellutti, inclusive à quem a vida faz de vítima como é o caso da atriz Maitê Proença.
    É possível que esta força extraordinária, possa servir de caminhos para aqueles julgadores que decide sobre o encarceramento do indivíduo. Podendo esta medida servir de humanização. Nem sempre o castigo excessivo, é a dosagem certa para o equilíbrio social.
    Parodoxalmente, atriz escolheu viver enfrentando um problema grave de frente, do que adotar medidas drástica contra si mesmo…
    Dessas reflexões, precisam o direito penal. O professor PQ traz à tona um caso concreto interessantíssimo. Acoselharia aos juizes de direito se debruçarem sobre o livro da atriz sobre a lente de Paulo Queiroz, um verdadeiro jurista gênio…

    Rogério Lima

  3. Eu já tinha lido alguns textos da autora (e atriz), porém o presente relato sobre o homicida passional é leitura obrigatória para qualquer pessoa que queira subsídios para buscar entender crime passiona. Maitê surpreende… Parabéns a Maitê; Parabéns a Paulo Queiroz, que teve a sensibilidade de expor o tema através de um belo texto.

  4. Numa visão imparcial os homicidas parcionais q convivem uns com os outros na mesma casa perdem a razão simplesmente por um sentimento de posse e de uma prisão inconciênte.
    Ele já vivem as turras ou num marasmo só. Não enxergam que o relacionamento acabou e qualquer motivo maior do que o fora do cotidiano os fazem perder o controle e chegar a um ato extremo.
    Acho que para não se chegar a esse extremo, a pessoa deveria fazer as malas e ir embora de vez refazendo sua vida de uma outra forma.
    A verdade é que se pensar como a maioria pensa que é na visão que a vítima teria é : Pq comigo? ou Vc nunca me amou de verdade poi se amasse não faria isso. E por outro lado se pensar como o autor do crime: Vc mereceu! Eu fiz o que tinha que fazer! ou Vc não podia fazer isso comigo.
    Um assassinato é sempre doloroso, penoso e cruel.
    Mortos não falam.
    A família sofre por todos os envolvidos.

  5. ENGRAÇADO O PAI DE DELA FOI ABSOLVIDO POR TER MATADO A ESPOSA SOB ALEGAÇAO DE LEGITIMA DEFESA DA HONRA , ORA VEJA PARA MIM LEGITIMA DEFESA DA HONRA E QUANDO ATACAM O NOSSO CORPO , OU SEJA QUANDO NOS AFLIGE A PONTO DE NOS FERIR OU VIOLAR NOSSO CORPO SEM O NOSSO CONSENTIMENTO. ELE SE SUICIDOU TARDE . AQUELE COVARDE SO FOI ABSOLVIDO PORQUE ERA DE UM ALTO CARGO NA JUSTIÇA.

  6. Adorei o texto. Inteligentíssima a Maitê, além de linda, é claro. Só nao apreciei, a idéia, quase ventilada, de que um homicída passional seria digno de piedade e de um menor (ou até inexistente) encarceramento, mas do que qualquer outro criminoso. Creio correta a idéia de que nao se deve olhar, um criminoso passional, pelo lado exclusivo da acusação. Também creio correta a idéia de que um criminoso passional é alguem que, pela sua condição emocionlal, não consegue ter a real noção da crueldade de seus atos ou se arrepender dos mesmos. Contudo, não se está falando de nenhuma doença mental diagnosticada. Não se pode chegar ao absurdo do raciocínio de achar que, mesmo que se comproeenda o estado emcional destas pessoas, elas possam ficar sem punição, ou receber punições irrisórias e insuficientes. Há muito tempo a sociedade optou, ao menos juridicamente, em sair do estado de barbárie, não sendo mais aceitas, justiicativas mesquinhas (que só fazem sentido na cabeça do criminoso) para se tirar uma vida. Não podemos admitir benevolências legais exacerbadas para quem comete crimes graves como um homicídio. Humanismo e compreensão para a (tentativa) de ressocialização, sim. Impunidade, não. Um criminoso de crime grave deve sofrer uma reprimenda legal à altura, não só para que este, tenha tempo de refletir sobre seu erro (se é que o vai), mas para servir de exemplo/resposta para outros e para ele mesmo, a fim de coibir novos crimes ou, simplesmente, afim de se obter uma resposta justa e razoavelmente equivalente ao mal praticado. O discurso de que o criminoso passional não tem na maioria das vezes motivos para fazer o que fez, cabe a qualquer criminoso, pois, podemos perguntar e, igualmente, não obter resposta: “que motivos (justificáveis) tem um estuprador para estuprar?”; “que motivos (justificáveis) tem um latrocida para roubar e matar?”; “que motivos (justificáveis) tem um criminoso do colarinho branco para desviar verbas públicas?”. Todas estas perguntas, tal qual, a situação aplicavél a do homicída passional, não tem resposta. O encarceramento, sozinho e sem investimento básico, pode não ser a melhor resposta social para o crime, mas, com certeza, a falta ou insuficiencia dele, com a colocação nas ruas de inúmeros criminosos de crimes graves, também não o é.

  7. Adorei o texto. Inteligentíssima a Maitê, além de linda, é claro. Só nao apreciei, a idéia, quase ventilada, de que um homicída passional seria digno de piedade e de um menor (ou até inexistente) encarceramento, mas do que qualquer outro criminoso. Creio correta a idéia de que nao se deve olhar, um criminoso passional, pelo lado exclusivo da acusação. Também creio correta a idéia de que um criminoso passional é alguem que, pela sua condição emocionlal, não consegue ter a real noção da crueldade de seus atos ou se arrepender dos mesmos. Contudo, não se está falando de nenhuma doença mental diagnosticada. Não se pode chegar ao absurdo do raciocínio de achar que, mesmo que se comproeenda o estado emcional destas pessoas, elas possam ficar sem punição, ou receber punições irrisórias e insuficientes. Há muito tempo a sociedade optou, ao menos juridicamente, em sair do estado de barbárie, não sendo mais aceitas, justiicativas mesquinhas (que só fazem sentido na cabeça do criminoso) para se tirar uma vida. Não podemos admitir benevolências legais exacerbadas para quem comete crimes graves como um homicídio. Humanismo e compreensão para a (tentativa) de ressocialização, sim. Impunidade, não. Um criminoso de crime grave deve sofrer uma reprimenda legal à altura, não só para que este tenha tempo de refletir sobre seu erro (se é que o vai), mas para servir de exemplo/resposta para outros e para ele mesmo, a fim de coibir novos crimes ou, simplesmente, afim de se obter uma resposta justa e razoavelmente equivalente ao mal praticado. O discurso de que o criminoso passional não tem, na maioria das vezes motivos para fazer o que fez, cabe a qualquer criminoso, pois, podemos perguntar e, igualmente, não obter resposta: “que motivos (justificáveis) tem um estuprador para estuprar?”; “que motivos (justificáveis) tem um latrocida para roubar e matar?”; “que motivos (justificáveis) tem um criminoso do colarinho branco para desviar verbas públicas?”. Todas estas perguntas, tal qual, a situação aplicavél a do homicída passional, não tem resposta. O encarceramento, sozinho e sem investimento básico, pode não ser a melhor resposta social para o crime, mas, com certeza, a falta ou insuficiencia dele, com a colocação nas ruas de inúmeros criminosos de crimes graves, também não o é.

  8. Quanta bobagem! Frescurite de dondoca. Pasteurizou a própria vivência de família desajustada e disfuncional para tornar mais palatável e enganar a si mesma e aos outros que leem seus livrinhos de confissões e autoajuda. A ‘empatia’ pelo pai assassino vem é da excelente pensão que ele deixou e da qual ela usufrui sem pejos,não largando o belo osso, que ainda defende com uma conviccão que dá medo,quando acusada de parasitismo em cima do contribuinte, mesmo tento publicamente vida de casada e com filha. Ela deveria era assumir seu complexo mal resolvido de fascinação pelo pai e raiva da mãe. Não à toa, naquela idade não tão inocente, as declarações dela pesaram a favor da absolvição do pai covarde para justificar a morte da mãe e que talvez fosse até desejo dela, eliminar a concorrente pela atenção do papai. Fica claro no texto ainda hoje que ela culpa a mãe e — outras vítimas — pela própria morte porque ”provocou” o orgulho, a ”honra” do pai. O mesmo viés aplica com relação a tia. O fato de o pai ter tido uma irmã igualmente assassina ”passional” já diz muito de que a coisa ali foi é falta de terapia para todos, incluindo essa esquisita que só lambem os pés pela beleza. Fosse um feiosa, o apoio seria outro ou nenhum e mandariam usar a pensão pagando um bom, UM BOM, psiquiatra. Pai, tia, irmão, tudo desajustado. Tem de inventar mimimi para ”se aliviar” de ser assim apontada: a filha, sobrinha e irmã de 3 casos de internação psiquiátrica. Mamãe morreu e não deixou gorda pensão, papai matou e deixou bela mesada para seus confortos de burguesa sem precisar pensar muito em como pagar as contas. A mãe está morta para se defender e dar sua versão dos fatos. Uma filha que até hoje a acusa e defende o pai não é a melhor porta voz da morta, zero confiável. Ela tem razão quando diz que todos já desejaram a morte de alguém e até CRIANÇAS. Soa meio confissão que era o que ela ‘criança’ queria, que alguém desse fim ma mãe já que ela não tinha como ou não tinha coragem. De fato, há crianças maquiavélicas [talvez até envenenando um contra outro, o pai contra a mãe], capazes de coisas mesquinhas e terríveis, incluindo que um dos pais morra: ou o pai, ou a mãe…Se alguém faz isso por eles, saem com as mãos limpas ganhando duas vezes: o fim de quem queriam e a não punição por tal fim. Se fosse feia não dariam tanto apoio, mas como é a eterna Dona Beja… Não tem inteligência em nada excepcional, por isso foi ser atriz e nem como atriz nunca convenceu a crítica que sempre viu apenas o rosto bonito, basta ler quem fez as variadas críticas, algumas bem ácidas até na participação como ‘apresentadora’ de programa, cuja mediocridade ficava exposta até os ossos perto das verdadeiras jornalistas inteligentes e com conteúdos além de lugares comuns e frases de efeito sem graça. O texto não tem nada de original, de excepcional, nada que ela fala/escreve tem, parece feito num gerador de lero-lero. Só trivialidades para parecer intelectual. Até Bruna Surfistinha faz livrinhos confessionais, bem escritos e revisados por terceirso, pelo menos vendem bem e até rendem filminho para a autora que não tem rompantes de especialista em crimes passionais por conta de mazelas em seu quintal. Queiram os deuses que nenhum juiz, jamais, tome o texto como fundamentação teórica para nada, pois só serve mesmo para jogar conversa fora em sala de espera de clínicas de beleza e olhe lá. Texto e resto todo do livro bem no estilo Sabrina, ou revista Contigo: profundidade de um pires. Está muito longe de ser um Gudo Palomba de saias, até porque falta-lhe o necessário afastamento para uma avaliação dos envolvidos sem a contaminação dos laços de parentesco e afetivos. Descreve apenas como ela ”processou” tudo de forma a sobreviver aos fatos, não é um ”tratado” de como funciona a mente de assassinos passionais ou quaisquer outros. Cai no de sempre: a vítima procurou e encontrou, estava ”pedindo” aquele desfecho. Alivia culpas de assassinos, os que ela conheceu, talvez alivie também alguma culpa escondida na alma, os justifica e, quiçá, a si mesma. Não convenceu, não convence como dondoca intelectual. Usar tal texto como referência para construir perfis de acusados de crimes tão bárbaros, para ”entender” a motivação dos criminosos e aliviar o lado deles em sentenças não está muito longe do mesmo abominável recurso de usar cartas psicografas de vítimas inocentando seus algozes. É como ela pasteurizou o que viveu e fica só nisto mesmo. Está saltando aos olhos que a beleza da moça está influenciando a aprovação do texto. Ao citar o nome dela em qualquer situação não nos remetemos a obras, somente ao visual dela, fato!

  9. …eu sei bem o que é ter uma mãe que trai seu pai e toda a família fica muito prejudicada, por isso eu entendo que a Maite ajudou ao pai a ser absolvido, para não perde-lo também…e se ela disse a verdade…ela está correta…quem fez o julgamento não foi ela… smo s Maite.

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