O Deus de Espinosa

4 de fevereiro de 2013

Assim vemos que o homem, como parte da Natureza inteira, da qual depende e pela qual também é governado, não pode fazer nada por si mesmo para sua salvação e seu bem-estar.

 

Antes de tudo, daí segue que somos verdadeiramente servidores, e mesmo escravos de Deus, e que a nossa maior perfeição é sê-lo necessariamente. Pois se fôssemos deixados a nós mesmos, e não na dependência de Deus, poderíamos realizar muito pouco, ou mesmo nada; e a justo título tiraríamos disso uma causa de entristecimento. Todo o contrário é o que vemos agora, a saber, que dependemos do perfeitíssimo de tal maneira que somos uma parte do todo, isto é, Dele mesmo; e, por assim dizer, contribuímos em certa medida para a realização de tantas obras habilmente ordenadas e prefeitas que dependem dele.

 

Por fim, esse conhecimento nos leva também a não temer a Deus, como outros temem que o Demônio, que eles mesmos fingiram, para lhes fazer mal. Como poderíamos temer a Deus, que é o próprio sumo bem, pelo qual todas as coisas têm alguma essência são o que são, incluindo a nós que vivemos nele?

 

Daí se segue que Deus não estabeleceu nenhuma lei para os homens a fim de recompensá-los quando obedecem a ela. Ou, para dizer mais claramente, as leis de Deus não são de tal natureza que seja possível transgredi-las. Pois as regras que Deus estabeleceu na Natureza, de acordo com as quais todas as coisas devêm e duram – se quisermos chamá-las leis – são tais que jamais podem ser transgredidas: por exemplo, que o mais fraco deve ceder ante o mais forte, que nenhuma causa pode produzir mais do que contém em si mesma, e outras similares, que são de tal jaez que jamais mudam, jamais começam, mas tudo está ajustado e ordenado sob elas.

 

E, para dizer brevemente algo sobre isto, todas as leis que não podem ser transgredidas são leis divinas. Razão: porque tudo quanto os homens decidem para o seu bem-estar, não segue que seja também para o bem estar da Natureza inteira, mas, ao contrário, pode ser para a destruição de muitas coisas.

 

Por isso concluímos finalmente que Deus, para fazer-se conhecer aos homens, não pode nem precisa usar palavras, nem milagres, nem nenhuma outra coisa criada, somente a si mesmo.

 

Como o que foi do antes, quisemos dar a conhecer não somente que não existem demônios, mas também que as causas (ou, melhor dizendo, o que chamamos de pecados) que nos impedem de alcançar a perfeição estão em nós mesmos.

 

Porém, se não há nenhum necessidade de que se deva supor os demônios, por que então supô-los? Não precisamos, como outros, supor os demônios para encontrar as causas do ódio, da inveja, da ira e outras paixões semelhantes, pois já encontramos suficientemente, sem recorrer a tais ficções.

 

Extraídas de um Breve tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar. São Paulo: Autêntica Editora, 2012.

Número de Visitas 398

4 Comentários

  1. Oi Paulo, tudo bem?
    Os seguintes trechos da obra de Espinosa me despertaram algumas reflexões sobre o tema.
    Espinosa é conhecido como um dos principais expoentes do panteísmo, da identificação entre Deus e natureza (Deus sive natura), e da definição de uma natureza naturante e da natureza naturada, criador e criatura.
    Hegel, na sua obra Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome, bem alerta para um equívoco na leitura de Espinosa.
    Identificar Deus com natureza não significa dizer que Deus é o mundo, pois o mundo é apenas uma parcela de natureza (algo finito, portanto), enquanto Deus, sendo totalidade e absoluto, é também o mundo (o mundo está em Deus), mas não é apenas o mundo (uma vez esse mundo, sendo algo finito, é tão somente uma parcela de algo que é infinito e absoluto).
    Com Espinosa, o problema teológico da justificação do mal e da injustiça ganha novos contornos, mas não é definitivamente resolvido (se é que podemos dizer que algo resta permanentemente resolvido tratando-se de sistemas metafísicos).
    Se o mundo é uma expressão/manifestação de Deus (natureza, absoluto), então o mal e a injustiça também são manifestações dessa totalidade, uma vez que nada escapa da presença desse Deus/Natureza/Absoluto.
    Porém, se Deus é absolutamente justo e perfeito, como justificar a presença do mal e da injustiça no mundo?
    O mal não seria realmente mal e injusto, mas sim essencialmente uma coisa positiva? Em outras palavras, o erro estaria nos limites da percepção e do entendimento humano, os quais não seriam capazes de ver além da cortina das aparências?
    Deus seria um relojoeiro cego (alguém que cria um relógio, dá corda, deixa esse funcionando e vai embora, sem não mais se importar com o seu funcionamento)?
    Deus tira férias ou está ausente quando o mal predomina?
    Como solucionar tais questões?
    O idealismo alemão quebrou a cabeça tentando resolver essas questões, especialmente com Schelling e Hegel. Para Schelling (Investigações sobre a essência da liberdade humana), o mal é apenas uma dimensão/parte do bem ilimitado.
    De certa forma, Schelling resgata os ensinamentos de Plotino, que na sua obra As Enéadas já ensinava algo semelhante.
    Com Hegel, o problema alcança novos patamares. Se Deus/Espírito Absoluto é algo essencialmente bom, justo e perfeito, e o mundo e a história são expressões de seu desenvolvimento, como é possível existir o mal no mundo (teodicéia)?
    Para Hegel, isso só é possível porque a história do mundo caminha para alcançar e concretizar a ideia de liberdade.
    Liberdade significando libertar-se de algo que vela e encobre; de outro modo, Deus/Espírito Absoluto está se desenvolvendo/conhecendo por meio da história, com o fim de tornar-se aquilo que Ele já é, ou seja, um ser perfeito, absoluto, justo e perfeito!
    O erro, a injustiça e a presença do mal no mundo são apenas etapas que o Espírito Absoluto precisa necessariamente percorrer (concretizar) para alcançar o pleno conhecimento de si mesmo, libertando-se do véu que o encobre.
    O fim da história seria justamente quando a ideia de liberdade se concretizasse plenamente, ou seja, quando o Espírito Absoluto reconhecesse plenamente a si mesmo.
    Como o reconhecimento é uma tarefa que envolve o outro, o Espírito Absoluto precisa se reconhecer por meio do desenvolvimento da história, a qual nada mais é que a concretização da ideia de liberdade.
    Assim, é óbvio que a lógica tradicional não funciona para explicar um dos problemas teológicos fundamentais, que é a coexistência do mal e da injustiça num mundo que é habitado (ou é a própria manifestação/expressão) de Deus (tido como ser absolutamente perfeito, justo, onipresente e onisciente).
    Algo é e não é ao mesmo tempo, e tais condições não se excluem mutuamente; o bem e o mal estão no mundo, e isso de forma alguma exclui a presença e a manifestação de Deus no mundo.
    Em razão dessa constatação, Hegel elabora a lógica dialética, a qual somente tem sentido e significado num sistema totalizante, em que cada acontecimento, cada ente, nada mais é que expressão e manifestação do Espírito Absoluto, que caminha rumo à concretização plena da ideia de liberdade, a qual somente acontecerá no fim da história, na qual o Espírito Absoluto terá plena consciência de si mesmo.
    Por enquanto é isso aí,
    forte abraço do amigo André.

  2. André, no tange a Espinosa, embora ele afirme que Deus é o sumo bem, perfeitíssimo etc., fato é que ele tem o bem e mal como ficções humanas (entia rationis), assim como a ideia de pecado, demônios etc.. Quanto a saber porque Deus, apesar de perfeitíssimo etc., permitir o mal no mundo (teodiceia), certamente ele responderia que essa objeção parte de uma percepção humana, sempre equivocada, relativamente aos desígnios de Deus, visto que as coisas cognoscíveis são infinitas e não podem ser conhecidas, absolutamente, pelo intelecto humano, que é finito. Textualmente: “No que respeita à segunda objeção, de que por que Deus não criou os homens tais que não pequem, basta dizer que tudo o que se disse sobre o pecado tão só se diz em relação a nós, como quando comparamos duas coisas entre si ou sob diferentes perspectivas.”

  3. Apenas para reforçar algumas afirmações, cito os seguintes trechos extraídos da obra Filosofia da história de Hegel:

    […] a história do mundo é nada mais que o desenvolvimento da ideia de liberdade.

    […] a história do mundo, com todos os acontecimentos que se sucedem e seus desenvolvimentos, é o processo de desenvolvimento e realização do espírito – essa é a verdadeira Teodicéia, a justificação de Deus na história. Somente essa percepção pode reconciliar o espírito com a história do mundo, ou seja, com a ideia de que o que aconteceu, e está acontecendo todos os dias, não apenas tem a participação de Deus, mas é essencialmente Sua obra. (Great books of the western world, Vol.46, Hegel, The philosophy of right; The philosophy of history , p.369.University of Chicago, 1952).

    Kelsen, em sua obra O que é a justiça, no ensaio intitulado “A doutrina do direito natural perante o tribunal da ciência” (p.169 e seguintes, São Paulo, editora Martins Fontes, 2001), afirma:
    “Para Hegel, a ideia de que a razão dirige o mundo é uma aplicação da “verdade religiosa” de que o mundo não está abandonado ao acaso mas é controlado pela “Divina Providência”, pela “Providência de Deus”.”

    “É elemento essencial de uma interpretação teológica dos fenômenos supor que Deus não apenas transcende o mundo, mas também que é imanente ao mundo, que é a manifestação de sua vontade. Como sua vontade é boa, é o valor absoluto, a realidade deve ser considerada perfeita e o valor deve ser imanente à realidade. Essa visão é o núcleo da filosofia de Hegel, segundo a qual a história do mundo é a realização da Razão, que representa o lógico absoluto, assim como o valor ético. Se essa suposição for verdadeira, então todo evento histórico deve ser considerado obra do Espírito do Mundo e, como tal, racional e bom.”

    Abraços, André.

  4. Trecho de um poema do Fernando Pessoa, O mistério das cousas, que tem e não tem a ver com tudo isso:

    “Não acredito em Deus porque nunca o vi.
    Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
    Sem dúvida que viria falar comigo
    E entraria pela minha porta dentro
    Dizendo-me, Aqui estou!
    (Isto é talvez ridículo aos ouvidos
    De que, por não saber o que é olhar para as cousas,
    Não compreende quem fala delas
    Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
    Mas se Deus é as flores e as árvores
    E os montes e sol e o luar,
    Então acredito nele,
    Então acredito nele a toda a hora,
    E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
    E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
    Mas se Deus é as árvores e as flores
    E os montes e o luar e o sol,
    Para que lhe chamo eu Deus?
    Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
    Porque, se ele se fez, para eu o ver,
    Sol e luar e flores e árvores e montes,
    Se ele me aparece como sendo árvores e montes
    E luar e sol e flores,
    É que ele quer que eu o conheça
    Como árvores e montes e flores e luar e sol.
    E por isso eu obedeço-lhe,
    (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
    Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
    Como quem abre os olhos e vê,
    E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
    E amo-o sem pensar nele,
    E penso-o vendo e ouvindo,
    E ando com ele a toda a hora.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *