O burrico que quis ser doutor

14 de janeiro de 2014

Sr., como sabe, há 20 anos me dedico à causa da educação e julgo assim ser também merecedor do título de doutor, ainda que honoris causa
Era só o que faltava: um burro doutor
Já houve um cavalo senador…
Eram outros tempos…seu pedido é absurdo
Absurdo? Conduzi professores para os quatro cantos do mundo, visitei as mais importantes instituições de ensino e assisti a milhares de aulas e palestras. Sou capaz de reproduzir algumas de cor, inclusive.
Compreendo. Mas a sua situação é diferente. Primeiro, por ser um jumento, embora bom e dócil, um jumentinho. Segundo, porque, na melhor das hipóteses, só é capaz de repetir, sem criar absolutamente nada.
Ora, ora, nisso somos iguais, afinal só fazemos ruminar o que outros pensaram ou disseram. Que são nossos atuais professores senão uma espécie singular de papagaios?
Não é bem assim, evidentemente. Isso já é uma injúria.
Injúria? Que são essas monografias, dissertações e teses senão uma reprodução servil dos pensadores originais? E que são esses arremedos de aula que consistem na leitura de data show, power point e outras muletas?
Reconheço que você tem razão em parte, mas exagera, obviamente.
Exagero? Veja, por exemplo, o doutor Ave Rara, o currículo tem mais de cem páginas, repleto das informações mais insignificantes, ocupou os cargos mais importantes da instituição, mas, como sabemos, nunca disse ou escreveu nada relevante.

Quanto ao Dr. Ave Rara, estamos todos de acordo.
Pessoalmente, aliás, vejo, com especial desconfiança, autores que se propõem a interpretar outros autores e os que amam escrever de modo abstruso. Sem falar nessas criaturas servis que rastejam como vermes por cargos administrativos.
De certo modo, a universidade de hoje são as senzalas de ontem. Pagam uma miséria e atraem, com freqüência, o que há de pior no mercado. 
Hoje ser bom professor significa, por isso, ser servil e produzir muito, ainda que isto signifique produzir lixo.
Quanto a isso, nem preciso dizer que, como burrico, carreguei centenas de teses para o lixo por determinação do senhor…aliás, esse tem sido o destino de quase todas tão logo defendidas.
Realmente. Mas, por favor, vamos manter isso em segredo.

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8 Comentários

  1. Atento PQ,

    Não sou tão velho assim e nem quero me autodenominar aqui como um indivíduo cabotino. Mas, sou do tempo em que livros valiam muito mais do que a tecnológica informática. Da velha máquina Olivetti que não permitia errar reiteradamente ou até mesmo da escrita de próprio punho. A ferramenta digital é viciante no que tange ao copiar e colar. Até ai tudo bem, quando se usa isto de modo moderado ou tão somente para ilustrar uma ideia. O sujeito cita Paulo Queiroz ou Ronald Dworkin como se dominasse suas obras inteiras. De sorte ou desinsorte, que engana quem se deixar enganar. Muitos não tem o cuidado ou talvez nem a competência técnica redacional de escrever duas linhas concatenadas.
    Um abraço fraternal e vida longa, professor!

    Rogério Lima, de Itaberaba.

  2. Aqui na nossa Itaberaba, todos os Queiiroz tem orgulho de um parente tão ilustre.

    Parabéns, primo, pela excelente qualidade do texto.

  3. Paulo de Souza Queiroz, um professor de verdade. Que tanto nos ensinou, quebrando as regras tradicionais do ensino jurídico. As suas aulas na UCSAL eram cheias, repletas de alunos vindos também de outras turmas que faziam questão de presenciar os seus ensinamentos regados de ideias próprias e sensibilidade.

    Acho que entrei no post certo para lhe dizer que os seus ensinamentos mudam a visão e a direção de muitos dos seus alunos. Deixo aqui o registro da minha imensa gratidão pela diferença que os seus ensinamentos fizeram no meu caminho. Espero que continue por muitos anos praticando a arte de ensinar.

    Excelente texto.

    Um forte abraço da sua aluna saudosa,
    Aline Khoury.

  4. Grande Aline, muitíssimo obrigado.
    Lembro-me bem de vc, e quanto parecia indignada nas primeiras aulas.
    Espero que estejas bem, realizada.
    Abraço fraterno, PQ

  5. Exatamente Paulo, eu era a mais indignada nas primeiras aulas. Rsrs
    Hoje, sou indignada com o Sistema Penal falido que temos, com a absoluta ineficiência das prisões no Brasil e com a constante falta de respeito pelo Poder Público com os direitos humanos dos presos e dos cidadãos. Estou bem realizada, atuando como Defensora na área criminal, utilizando sempre as suas obras, além de fazendo-as chegar até o conhecimento dos estagiários da Defensoria, que sempre se entusiasmam com a leitura.
    Lembro-me também de quando você me disse que com o passar das aulas eu amadureceria e compreenderia os seus ensinamentos. Pois bem, previsão infalível.
    Foi você quem abriu meus olhos no campo do Direito Penal e eu serei sempre grata.
    Grande abraço!

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