Nietzsche e Jesus: dois extremos que se tocam? (revisto)

14 de agosto de 2015

Todo crente é de certo modo um ateu, pois a afirmação da sua crença implica quase sempre a negação de outras crenças e deuses; mais claramente: para ser cristão, é preciso negar ou ignorar o islã, o judaísmo, o budismo, o hinduísmo, a umbanda, o panteísmo, o zoroastrismo etc.; e vice-versa; ou seja, para acreditar em Javé, por exemplo, é preciso desacreditar outros deuses com a mesma autoridade ou dignidade: Zeus, Apolo, Amon, Crom, Thor, Odin, Baal, Alá, Shiva, Brahma, Vishnu, Ogum, Ísis, Iansã, Jaci e outros tantos. Por isso, o “meu Deus” e a “minha religião“ excluem a crença, o deus e a religião dos outros, pois só a “minha fé” e o “meu Deus” são verdadeiros;
Somos cristãos pelas mesmas razões que somos brasileiros e não franceses ou italianos e, pois, falamos português e não francês ou italiano: somos herdeiros da colonização e toda tradição de lutas, conquistas e violências que nos precedeu, isto é, uma história de extermínio de povos, culturas, mitos, línguas, religiões e deuses. Trata-se, portanto, de algo acidental: se fôssemos colonizados pelos chineses, seríamos budistas e falaríamos chinês ou mandarim; se fôssemos colonizados pelos árabes, seríamos muçulmanos e falaríamos árabe;
Em geral toda forma de violência tem algum bom pretexto ou uma bela e sonora metáfora; em nome de Deus, por exemplo, foram cometidas as mais terríveis violências: a noite de São Bartolomeu, o extermínio dos cátaros (ou albigenses), as cruzadas, a inquisição, os massacres patrocinados por Moisés (Êxodo, 32: 27 e 28) ou Josué (6:21) e seus atuais seguidores: Bin Laden, Bush, entre outros;
O cristianismo (o islã etc.) depende do pecado e do pecador tal qual os presídios, de presos, os cemitérios, de cadáveres, os senhores, de escravos; o cristianismo (re) inventou o pecador (e o pecado) não para libertá-lo, mas para escravizá-lo (a expressão “servo de deus” não existe por acaso) e manipulá-lo; enfraquecê-lo, portanto; pior: pretende ser a cura da doença por ele criada: o pecado;
De acordo com um crente, todos, à exceção daqueles que compartilham de sua fé, estão no pecado e vão para o inferno ou algo assim; há hoje tantas denominações (algumas autênticas empresas comerciais) e doutrinas tão díspares e contraditórias (uma nova Babel) que já não temos certeza se o cristianismo é uma religião monoteísta e se ainda se venera o Cristo ou o dinheiro;
Erros, decepções, traições, doenças e mortes, por mais que nos causem dor e sofrimento, são inevitáveis e são, pois, a própria vida; tal qual os animais e plantas, nascemos, crescemos, adoecemos e morremos inevitavelmente; como os frutos de uma árvore, que precisam amadurecer, cair, apodrecer e soltar suas sementes para que outras árvores germinem e frutifiquem, assim também são os homens: nascemos para a morte e morremos para a vida (Heráclito);
Um Deus que quisesse ser adorado e não apenas temido jamais nos tentaria ou corromperia com promessas de recompensa (céu, vida eterna etc.) nem nos chantagearia com ameaças de morte, inferno etc.; tampouco incentivaria a subserviência, e, pois, a dissimulação, nem condenaria a crítica e a rebeldia necessárias; um Deus assim não precisaria de servos, nem estes Dele;
Eu só acreditaria num Deus que não fosse tirânico, ciumento, cruel, misógino, homofóbico, racista. Eu só acreditaria num Deus que fosse grande e justo e maduro e sábio o bastante para saber amar as pessoas como elas realmente são e não como Ele gostaria que elas fossem; eu só acreditaria num Deus capaz de perceber o que há de grande e pequeno e divino em cada um de nós para além de todo preconceito; um Deus, enfim, que tratasse judeus e palestinos, crentes e ateus, homens e mulheres, hétero e homossexuais, prostitutas e criminosos com a mesma dignidade, com o mesmo respeito; afinal, ainda que tenhamos o dom de profetizar e conheçamos todos os mistérios e toda a ciência, ainda que tenhamos tamanha fé, a ponto de transportar os montes, se não tivermos amor, nada seremos (1 Coríntios 13);
Jesus tinha razão: o reino de Deus – e também do demônio, pois são o verso e reverso de uma mesma moeda, tal qual alto e baixo, direita e esquerda, bem e mal, motivo pelo qual um não existe sem o outro – está dentro de nós (Lucas, 17:21); Nietzsche também: não existem fenômenos religiosos, mas apenas uma interpretação religiosa dos fenômenos!

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4 Comentários

  1. Professor e amigo Paulo Queiroz.

    Antes reitero a minha estima e admiração pela tua obra.
    Inicialmente, devo dizer que no texto primitivo sobre o mesmo tema (Nietzsche e Jesus: dois extremos que se tocam? ), discordei integral e peremptoriamente. Desta feita, devo falar que concordei quase que completamente. O texto foi muito melhorado, de modo que acato algumas verdades acerca das igrejas pouco espirituais e de poucas palavras, sobrepujando-se no seu caráter da prosperidade material.
    Demais disto, acrescento que a Bíblia é, após ser um livro espiritual e que para mim é Deus revelado, ela, a Bíblia, é um excelente manual de conduta moral, de direito e de flexibilidade. Não aderindo nalguns momentos, sobretudo, no novo testamento, sob a ótica de Jesus, a imposição da lei a ferro e fogo.
    Há muitos anos, que eu faço comentários de capítulos e versículos do livro sagrado, os enviando para minha caixa de endereço. Isto todos os dias, religiosamente. Religiosamente, no que tange a assiduidade, assevere.

    Veja o comentário de hoje e emita o seu parecer:

    15/08/2015
    05:20
    PERDOAR e ARREPENDER-se, binômio necessário.
    O escribas e fariseus insistiam para que Jesus condenasse a mulher surpreendida em adultério, para que assim fosse observada, estritamente, a lei de Moisés. Porém, Cristo a oportunizou arrepender-se e não mais pecar:
    E ela disse: Ninguém (me atirou pedras me condenando), Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. João 8: 11.
    O que menos importa aqui é o texto literal. O adultério da mulher. Mas o que representa o arrependimento do pecado e do erro.
    Em Doutor Lucas 17: 3-4 diz:
    “Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se ARREPENDER, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: ARREPENDO-me; perdoa-lhe.”
    O cerne está no perdão reiterado, porém, a condicionante é o ARREPENDIMENTO. O não mais transgredir, o não mais ofender, o não mais ferir, o não mais violar.
    Conclui-se assim, que o perdão será concedido setenta vezes sete (Mt 18: 22). Porém, teremos que nos ARREPENDER e não mais persistir na afronta e na transgressão. Às vezes perdoamos e não mais ofendemos à alguém especificamente, mas, ao mudar de alvo, continuamos na prática perniciosa contra outro irmão, o que dá no mesmo.
    Enfim, receber perdão, não erre mais. De maneira que se assim o fizer, o Senhor Jesus o abençoará com a Salvação e com a Vitória.
    Um abençoado fim de semana para nós.
    rl.

  2. Concordo integralmente com o teor do texto. Se, como dizem, o Novo Testamento revogou tudo aquilo que está em contrário com a palavra do Cristo (especialmente boa parte das passagens contidas no Velho Testamento), a religião deve orientar a humanidade em direção ao Amor, ao perdão e à compreensão face às diferenças; não, porém, ao dinheiro, à adoração delirante e exacerbada, a fé cega na pessoa do pregador, a exclusão, o sectarismo, dentre muitos outros males que afligem o mundo nessa era da informação. Mais do que nunca, a política, a religião e a ciência entram em evidência e em conflito, gerando essa confusão mental coletiva. Realmente, vivemos hoje uma “Nova Babel”.

    No mais, conheço pessoas que são evangélicas, católicas, espíritas etc. que aceitam as demais religiões, embora nelas não depositem sua fé. Entretanto, observo que, na modernidade, em que todos estão mais interligados, são poucos os que possuem uma consciência crítica e uma fé mais evoluídas. A regra é a existência de seres “humanos” com um nível mental muito rasteiro, que buscam apenas agradar ao seu próprio ego e nutrir desejos mesquinhos. Ou seja: o mal realmente existe e ele vem dos religiosos e das influências a que estão sujeitos, não da religião.

    E, pior, muitos desses aí conhecem o poder transformador das religiões (para quem ainda não percebeu, existem incorporações e desincorporações reais até mesmo em cultos e rituais no âmbito das igrejas tradicionais), mas a motivação de quem as procura, na maioria dos casos, é sempre a mesma: pedir perdão, apagar os pecados, evitar o sofrimento e, ao mesmo tempo, mandar os outros para o inferno e ter garantido o salário até o final do mês. Essas são as “grandes aspirações” de nossa humanidade em evolução.

    Ninguém está livre de pensar, falar ou praticar o mal (em certos momentos, isto pode até ser a regra). Mas devemos, cada vez mais, nos policiar internamente, e tentar praticar a Palavra que nos foi confiada.

  3. O mais intrigante é que poucas pessoas conseguem ver e assimilar o que para alguns são conclusões lógicas muito bem estabelecidas e verdadeiramente motivadas. O ateísmo não é uma escolha, opção, fé ou devoção. É uma conclusão lógica, pura, simples e corajosa, cujo produto é a negação aos abusos, da violência e dos devaneios da fertilidade e da ignorância da mente humana, que desesperada pelo consolo e pelo culto à sua imaginária superioridade, cria e interpreta divindades – além de dogmas, rituais, misticismo, regras, etc. Veja que nossa espécie é tão fraca e egocêntrica (para não dizer, fantástica!) que, é claro, só poderia ter sido criada à imagem e semelhança de um ser perfeito e onipotente. Enfim, a inconfundível ‘lógica’ da religião. Me preocupo com o seguinte: Quando evoluiremos enquanto espécie para aceitar a realidade e nos livrar de todas essas religiões e devaneios místicos? Quando a vida, a morte, a doença, e outros problemas da vida humana deixarão de ser chagas emocionais inconsoláveis para se tornarem o que são, decorrências lógicas da vida? Infelizmente, o pior disso tudo é a hostilidade presente no dia a dia de quem está condenado a viver em sociedades dominadas pelo misticismo e pela fantasia cega, sabendo que tudo isso é uma grande bobagem. Ainda assim, assistindo todos os dias na política, na sociedade, nas instituições, na mídia e através de ‘formadores de opinião’ uma chancela indelével à mentalidade medieval de louvor e gratidão ao sobrenatural. Um grande abraço, professor.

  4. Essa discussão não encontra-se na pauta de Jesus.

    Crer em Jesus é Cristianismo? Qual cristianismo?

    Se fossemos seguidores idealistas de Jesus, ou como queiram nomina-lo, praticaremos o “ame o próximo como a ti mesmo” não haveria de termo problemas de homofobia, pedofelia, maus tratos a crianças, animais… viveríamos em uma pauta de amor.

    Como é difícil amar, no mundo capitalista! Amo o que me dar prazer.

    Arrependa do seus pecados, confesse não se cale fale a Deus – viva o amor ao proximo não so em campanhas de criança esperança.

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