Diálogos surreais (II)

28 de abril de 2013

Diálogos surreais (II)

Senador, vim discutir o projeto que legaliza a prostituição.

Prostituição? Essa expressão é muito forte, deputado. Trata-se de um projeto que regulamenta o comércio do prazer. De mais a mais, não existe mais essa coisa de prostituta. Essas moças e rapazes são, em verdade, modelos, dançarinas etc.

Pelo visto, o projeto conta com a simpatia de vossa excelência.

E como não? Aqui entre nós, a solidão na capital é terrível, esposa e amigos distantes, o senhor sabe… O jeito é buscar um serviço desse… é seguro e sai baratinho.

Entendo. Mas, senador, não podemos ser favoráveis a esse projeto imoral; já pensou se isso passa? Isso é um absurdo! Além do mais, o povo é contra, e nós somos os legítimos representantes do povo.

Representantes do povo? O senhor realmente acredita nisso? O senhor já reparou que aqui tem lobby de tudo, menos o lobby do povo? Não me venha com essa conversa fiada, deputado!

Não é bem assim, senador. Nós fomos eleitos pelo povo que nos outorgou procuração para representá-lo. E a representação é inerente ao sistema democrático contemporâneo.

O senhor é mesmo bom de metáforas. De todo modo, se isso for verdade, o povo tá lascado, deputado. Porque, como disse outro dia o deputado chiquinho, o parlamento tem mais de 300 picaretas. Aliás, seria mais exato dizer que tem mais de 300 idiotas.

O senhor já esta sendo deselegante, senador. Como assim, 300 idiotas?

Ora, deputado, sejamos francos: a grande maioria aqui são analfabetos funcionais, gente que não tem a menor noção do seu papel constitucional. Boa parte nunca leu a Constituição; e, se ler, não entenderá patavinas.

Senador, o senhor está exagerando. Veja o deputado xaropinho, por exemplo: ele é um homem inteligente, culto, consciente de seu papel político; conhece Platão, Aristóteles, Maquiavel, Kant, e faz conferência no Brasil e no exterior. E é um homem honestíssimo e respeitadíssimo.

Tem razão, deputado. Mas ele é a exceção da exceção. A regra aqui é a total ignorância. Por essas e outras, é que eu defendo um parlamento mínimo, um sistema unicameral, com, no máximo, 100 parlamentares, tal como propõe aquele jurista italiano… o…frajola, acho…

Não é frajola, não, senador; frajola é o gato do desenho animado frajola e piu piu. O senhor deve estar se referindo a Ferrajoli, Luigi Ferrajoli, filósofo e jurista italiano, que defende essa ideia no livro principia iuris.

Exatamente, deputado! O senhor é mesmo f…

Mas, falemos do projeto…

O tempo passou, senador. Melhor falarmos disso outra hora.

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2 Comentários

  1. Fantástico….kkkkkk

    Ao Sr. Paulo Queiroz (que haja vista, não me conhece)

    Nesse embate, me debato…

    Na impunidade, me forçam, me calo

    Doi, mas tenho que dizer

    Esse país só tem um bando de FDPs

    Agradeço ao diálogo

    “Surreal”, de fato

    Parabéns, e te digo: sou sua fã

    Não nego, não minto

    Deixo uma humilde poesia

    Em meio a tantas hipocresias

    Espero ter agradado,

    Espero o próximo “Diálogo”

    Um grande abraço

    Att.

    Luana Lacerda

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