Conversando com Deus

6 de maio de 2009

Senhor: apesar da minha fé, tenho algumas dúvidas e gostaria de revelá-las.

Claro…

Em primeiro lugar, sei que a história refere um sem número de religiões (e deuses e demônios): judaísmo, budismo, umbanda, cristianismo, hinduísmo, islamismo, xintoísmo, só para citar algumas das mais conhecidas. E se pensarmos nas religiões extintas (e deuses e demônios mortos), a relação não teria fim; por isso, tenho por vezes a impressão de que as religiões e os deuses, à semelhança das línguas, variam no tempo e no espaço. Então me pergunto: por que esta religião que adotei e não outra; por que este Deus e não outro (s)? Onde fica o cemitério (e berçário) dos deuses?

Eu poderia responder a isso de muitas formas, mas vou fazê-lo assim, simplificando um pouco: todas as religiões (e deuses) citadas são apenas nomes para designar uma mesma experiência, a experiência com Deus. Deus é uno e múltiplo. Não surpreende assim tantos nomes; ao fim, tudo é uma só e mesma coisa. Não importa, portanto, o nome do Deus (Odin, Thor, Ala, Jeová, Jesus, Zeus, Isis, Amon-Ra ou Huitzilopochtli) ao qual tu associas a tua crença, porque todos os deuses têm, em princípio, o mesmo valor e legitimidade. O contrário seria apenas intolerância, ignorância e eventualmente fanatismo.

Então, Senhor, o pecado capital residiria na falta de religião, na falta de um Deus, isto é, no ser ateu, no ser agnóstico.

Eu não disse isso; és tu que o dizes. Aliás, foi sempre assim: são os homens que dizem o que os deuses (supostamente) dizem. Eu afirmaria que, em verdade, uma crença (ou sua falta) por si só não torna alguém nem melhor nem pior. Não preciso, para prová-lo, citar os dissimulados, os mesquinhos e toda sorte de criminosos com ou sem religião.

Senhor: ocorre-me, por vezes, que, mesmo quando pensamos na mesma religião (v.g., o cristianismo), não estamos, a rigor, pensando nas mesmas coisas; sim, porque há tantas religiões, denominações e doutrinas tão díspares, que há pouca coisa realmente em comum entre elas. Enfim, parece que cada padre, cada pastor, cada apóstolo e cada crente, a pretexto de falar de Deus e da Bíblia, está em verdade a falar de suas próprias experiências.

Talvez tenhas razão e talvez isso explique a existência de tantas religiões, de tantas denominações, de tantas divergências. De todo modo, a diversidade em princípio afirma a vida e não o contrário.

Devo confessar ainda, Senhor, que sou um tanto cético; agora mesmo eu me pergunto se essa nossa conversa não é uma ilusão, isto é, um diálogo com um personagem (Deus) imaginário, logo, um monólogo, de sorte que, a rigor, eu estaria a falar comigo mesmo.

Bem, tenho que só tu podes responder a isso. De todo modo, foi dito que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas: 17:21).

E já que estou em Vossa Presença, às vezes me questiono, apesar da minha fé, se Deus não seria uma invenção humana.

Sim e não. De fato, os homens inventam seus deuses à sua imagem e semelhança e conforme as suas necessidades e os seus interesses. Mas a recíproca é também verdadeira: Deus (s) criou o homem. É que o homem e Deus são uma só e mesma coisa. De sorte que os homens, a pretexto de falar de Deus (ou do demônio), estão em verdade a falar de si mesmos, atribuindo-lhe as suas próprias qualidades, virtudes etc. – reais ou imaginárias; por isso é que seus deuses são inevitavelmente antropomórficos, com sentimentos e emoções próprias dos homens. Assim, homens medíocres e intolerantes inventam deuses também medíocres e intolerantes; homens grandes, deuses grandes; homens mesquinhos e preconceituosos, deuses mesquinhos e preconceituosos. E a cada experiência religiosa um novo Deus se reinventa. Porque Deus é o homem e o homem é Deus.

 

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28 Comentários

  1. Eis aí um texto em que os inquisidores não teriam a menor dúvida de classificar como heresia e submeter ao tribunal da inquisição, tão necessário à afirmação da fé. Viva Torquemada!

  2. ” o que me fascina em Deus não é só acapacidade de ressuscitar os mortos, de curar os cegos ou os paralíticos, o que me fascina nele é a capacidade de dizer que ele é pai, um pai que tem preferência pelos piores homens e mulheres deste mundo. Um pai que ama os que não merecem ser amados, que abraça os que não merecem ser abraçados e que escolhe os que não merecem ser escolhidos.Um pai que quebra as regras ao nos desconcertar com seu amor surpreendente, um pai que não quer se ocupar com seus erros, porque o amor que ele tem por vc., é um amor cheio de futuro, ele não está preso ao seu passado e a ele não interessa o que vc. fez ou deixou de fazer de sua vida,a ele o que importa é o que vc. ainda pode fazer.”

  3. Fui conferir quem é o tal de Torquemada tantas vezes citado pelo Raimundo das Neves. Segue:
    Tomás de Torquemada (Valladolid, 1420 — Ávila, 16 de setembro de 1498) ou o O Grande Inquisidor foi o inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão no século XV e confessor da rainha Isabel a Católica. Ele foi famosamente descrito pelo cronista espanhol Sebastián de Olmedo como “O martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do seu país, a honra do seu fim”. Torquemada é conhecido por sua campanha contra os judeus e muçulmanos convertidos da Espanha. O número de autos-de-fé durante o mandato de Torquemada como inquisidor é muito controverso, mas o número mais aceito é normalmente 2.200.

    Ainda jovem, tornou-se frade dominicano no Convento de São Paulo em sua cidade natal. Em 1452 foi eleito prior do Convento de Santa Cruz, em Segóvia. Era sobrinho do cardeal Juan de Torquemada, igualmente dominicano.

  4. Parabém prof. Paulo Queiroz. Nota mil o site e as manifestações.

    É por isso que a obra (CD, DVD, representação cênica em ópera) “o Alabê de Jerusalém ” de Altair veloso é monumental.

    Segue pequeno excerto.

    “Ah, meu Deus! Assisto com muita tristeza a pena da aspereza dilacerando a beleza de uma linda sinfonia. A aguarrás de juizes, ciumentos inflexíveis, descolorindo as matizes de uma linda pintura, só porque não gostam da assinatura?”

    “E vai com uma bailarina, com a inocência de menina, dançando em volta do sol, a Grande Mãe Terra. Enquanto muitas nações, governos, religiões ensaiam a dança da guerra.”

    “Na verdade a bola azul quase nunca foi amada; é sempre penalizada. Tem um trabalho enorme, dedicação e talento para preparar a mistura, juntar os seus elementos para dar forma às criaturas, e elas, depois de paridas, desconhecem a matriarca e dizem, mal agradecidas: que a carne é fraca.”

    “E quando o planeta gera um Avatá, um iluminado assim como o Nazareno, tem logo quem se apresenta com conhecimento profundo e diz logo: não é desse mundo, só pode ser extraterreno.”

    “Ah, é difícil entender porque é que o homem, até hoje, cospe no prato que come. Algumas religiões, não sei por qual motivo, dizem que a Terra é um território com vocação pra purgatório, não passa de sanatório… E que nós só seremos felizes longe dela, bem distante, lá onde os delirantes chamam de paraíso.”

    “Olha, eu vou dizer de coração. Na minha simples, dia após dia, me perdoem a liberdade, mas religião de verdade, mais parecida com a que Jesus queria, talvez seja sentimento de ecologia. Para esse sentimento não tem fronteiras e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento.”

    “Hoje, ela pensa nas plantas, nos rios, no mar, nos bichos. Amanhã, com certeza, com a mesma dedicação e capricho, pensará com muito cuidado nos meninos abandonados.”

    “Ah, se ela tivesse mais força para sustentar sua zanga, evitaria, com certeza a fome cruel de Ruanda. Não tinha maturidade, ainda era uma menina, quando a impertinência sangrou, com a bola de fogo, a pobre Hiroshima. Mas ela cresce, se instala como uma prece no coração das crianças. Tenho muitas esperanças…”

    “Eu tenho toda a certeza que nosso planeta um dia, mesmo cansado, exausto, terá toda a garantia e guardado por uma geração vigia, nunca mais verá a espada fria no Holocausto.”

    “A intolerância, repito, é a mais triste das doenças. Não tem dó, não tem clemência. Deixa tantas cicatrizes nas pessoas, nos países, até as religiões, guardiãs da Luz Celeste, abandonam seus archotes para empunhar cassetete. E o que, na verdade, refresca o rosto de Deus, é um leque, que tem uma haste de Calvino e outra de Alan Kardec.”
    “Na outra haste, as brisas, que vêm das terras de Shivas, são uma, dos franciscanos, e outra, dos beduínos. Não precisa ir muito longe… Jesus nasce entre os rabinos.”

    “Às vezes corações que crêem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás. Não sabem que a nossa terra é uma casa na aldeia, religiões na Terra são archotes que clareiam.””

  5. Eu iria colocar “Bruxo do Cosme Velho” em homenagem ao maior escritor de todos o tempos, mas decidi homenagear o escritor Francês que ao lado de Rabelais é um de meus prediletos. Gargântua e Pantagruel é de longe o livro estrangeiro mais cômico que já li.

    Na verdade me chamo Thiago.

    No memento em que li seu texto, me veio em mente imediatamente as cenas do “Alabê de Jerusalém”, que tem uma mensagem parecida, com a qual eu concordo plenamente.

    Creio que a verdade (pelo menos a minha) pode estar no Henoteísmo (crer em uma divindade sem desmereçer ou descrer em outras ), porque creio que as pessoas tem o direito de crer ou não em Deuses e Religiões.

    Estou mais próximo do Ateísmo, mas penso que esses rótulos são todos muito chatos.

    Parabéns pelo site novamente.

    Abaço.

    Thiago.

  6. Gostaria de lembrar ao Paulo que o Alabê de Jerusalém, é um africano nascido há dois mil anos na Nigéria. E que Altay Veloso, autor da obra, é um compositor muito famoso, carioca e conhecido por ser um dos maiores compositores do Brasil.

  7. Alessandra,

    Você agora disse tudo. Eu simplesmente fico paralisado ao ouvir (e refletir) sobre suas letras (numérica e qualitativamente, é, sem dúvida, o maior compositor da musica brasileira).

    Confesso que a estesia que sinto é muito estranha.

    Nesse sentido, e já que você, ao que parece, também gosta de Altay Veloso, ofereço-te a música que ora ouço, de Altay Veloso: “40 anos”, uma das minhas prediletas.

    Beijos.

    Thiago.

  8. Na bíblia sagrada, fala de um indvíduo, (lúcifer) que queria ser maior que Deus, queria tomar o lugar de Deus e o que aconteceu com ele? Deus o espulsou dos céus. Agora a estória parece que se repete, o diabo querendo se passar por Deus no livro “conversando com Deus”. Comigo não satanás!!!

  9. ”Nem olhos viram,nem ouvidos ouviram,nem jamais penetrou em coração humano o que DEUS tem preparado para aqueles que o amam.”

    1 Coríntios9.

  10. Lembre-se da resposta de JESUS a TOMÉ:” Porque me viu,você creu? Felizes os que não viram e creram”.Sei que as provas nunca podem compelir ou coagir a fé.

  11. O nosso maior erro é tentar definir DEUS, limitando suas ações e até decidindo o que ele é ou não, este ser vai muito além da nossa compreensão humana…
    Que aproveitemos das boas lições, amemos o próximo (com ações e não só palavras) e obedeçamos às nossas consciências….
    Muito dificilmente tudo isso vá nos levar para longe dele! E estar perto de DEUS é fundamnetal!

  12. Confesso que li “Conversando com Deus I” e ele é um pouco confuso..ou a mi nha capacidade é pequena eheheh

    Enfim, em alguns momentos, lendo o livro, senti sim, a presença do Esp. Santo, algumas revelações me foram feitas como: Somos a imagem e semelhança de Deus não como a maioría imagina…mas como Ele próprio é..UM SER TRINO, essa é a verdadeira definição.
    Já quando “Deus” responde à ele algumas questões
    sobre vidas passadas, vai contra tudo que nos é passado por pastores e grandes teólogos…
    Cheguei a fechar o lvro achando um “absurdo”, mas Deus me mandou continuar, pois, não é porque não concordo com algo que devo ignorar…

  13. parabéns tio pelo texto!

    percebi no texto argumentos que me fizeram lembrar de Ludwig Feuerbach,que por sua vez aderiu e desenvolveu tal pensamento de alguns pré-socráticos…lembro-me tambem do pensamento cartesiano (“o divino só pode ser conhecido pelo divino”)…pois bem, a religião vem perseguindo o homem desde o momento em que o homem se entende por homem… a religião apartir de uma perspectiva historica trouxe benção e maldições…pois de uma maneira ou outra quem está a frente desta é o homem( sendo este oscilante)… sec XIX surgiu a teologia da morte de Deus, onde foi suposto o fim da religião, por causa do progresso do homem, modernização, logo pensa-se que a velha religião cansa…contudo, no sec XX e XI ela vem retornando com tudo, na europa vem crescendo o islã de modo demasiado, no brasil o fenomeno pentecostal, todas tentando responder as expectativas das pessoas principalmente os necessitados, pois a religião dele faz deste um alguem importante, pois a sociedade q está inserido não o considera… pois bem… Deus, Alá… não há como provar( racionalmente) sua existencia, contudo, também não se pode provar a sua inexistencia… é crer ou não crer… se p/ alguns ateus a escolha do crer é uma ignorancia, mais ignorante é este por não respeitar o direito de escolha de quem escolhe, e vice-versa…como diz o filosofo: ” lutarei para que vc tenha o direito de falar mesmo que não concorde com o que diz”( é mais ou menos assimm..)..rs..

    abração!

  14. Grande Rafael!
    Rapaz, tens razão quanto à necessidade de se respeitar a crença (e não crença) dos outros. A religião (e sua falta) é uma dimensão essencial do homem. Consequentemente, é preciso respeitá-las por mais que as consideremos infundadas. Mas isso já não é, propriamente, uma questão religiosa, mas político-jurídica. Há pessoas, p.e.x., que acrediam, sinceramente, em fadas, duendes, gnomos etc., e devemos respeita tal crença. Depois, te mando o livro que acabou de sair

  15. neste não seria sábio identificar me.
    Pastor Paulo Queiroz! é com grande prazer que me dirijo a um homem de Deus para compartilhar algo de profundo e talvez desastroso na vida de um cristão. O que tenho a falar, ou até mesmo pedir ajuda é relacionado a uma de sua ovelhinhas que esta com o coração apodrecido por raiva, rancor, magoas, e isso está a matando aos poucos. é interessante que não pode perder uma reunião! só não dá ouvidos a Deus, mas parece que ao Senhor sim.
    hoje escultei esta ovelha, e fiquei muito triste de saber como anda aquele coração. Até orar para que Deus mate uma pessoa que ela não gosta , ela tem feito. O pior é que esta pessoa é neta dela; – a vida dela tem sido assim, esprágueijando, mal dizendo ou simplesmente tratando as pessoas que a amam com arrogância, entre outras coisas. Talvez em uma de suas pregações pela manhã de domingo, o Senhor possa falar através do Pastor Paulo para dar aquela direção a amada irmã. Já que seu filho é um pregador e tudo o que ele fala esta errado para ela. desde já agradeço e que o senhor possa ser usado por Deus para recolocar este coração de volta ao caminho do amor!
    Fique com Deus!

  16. Pastor Paulo Queiroz! é com grande prazer que me dirijo a um homem de Deus para compartilhar algo de profundo e talvez desastroso na vida de um cristão. O que tenho a falar, ou até mesmo pedir ajuda é relacionado a uma de sua ovelhinhas que esta com o coração apodrecido por raiva, rancor, magoas, e isso está a matando aos poucos. é interessante que não pode perder uma reunião! só não dá ouvidos a Deus, mas parece que ao Senhor sim.
    hoje escultei esta ovelha, e fiquei muito triste de saber como anda aquele coração. Até orar para que Deus mate uma pessoa que ela não gosta , ela tem feito. O pior é que esta pessoa é neta dela; – a vida dela tem sido assim, esprágueijando, mal dizendo ou simplesmente tratando as pessoas que a amam com arrogância, entre outras coisas. Talvez em uma de suas pregações pela manhã de domingo, o Senhor possa falar através do Pastor Paulo para dar aquela direção a amada irmã. Já que seu filho é um pregador e tudo o que ele fala esta errado para ela. desde já agradeço e que o senhor possa ser usado por Deus para recolocar este coração de volta ao caminho do amor!
    Fique com Deus!

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