Citações: MONTAIGNE

29 de novembro de 2010

 

As leis conservam seu prestígio não por serem justas, mas por serem leis. Esse é o fundamento místico de sua autoridade. É freqüente que sejam feitas por tolos. E mais frequentemente por pessoas que, em seu ódio à igualdade, têm falta de equidade. Mas sempre por homens: autores vão e incertos.

Não há nada tão grosseira e amplamente, nem tão correntemente falível como as leis. Quem lhes obedece porque são justas não lhes obedece justamente pelo que deveria.

Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas: e mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais que glosarmos uns aos outros. Tudo fervilha de comentários; mas de autores há grande escassez.

É só nossa fraqueza pessoal que faz que nos contentemos com o que outros ou nós mesmos encontramos nessa caça ao conhecimento; alguém mais hábil não se contentará. Há sempre lugar para um sucessor, e até para nós mesmos, e um caminho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está no outro mundo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz, ou sinal de lassidão.

Estou no mesmo ponto em que Alcebíades, que jamais comparecerei, se puder, perante um homem que decida a respeito da minha cabeça, e que minha honra e minha vida dependam mais da habilidade e do cuidado do meu procurador do que da minha inocência.

Como nenhum fato e nenhuma forma se parecem inteiramente com outros, assim nenhum difere inteiramente de outro. Engenhosa mescla da natureza. Se nossas faces não fossem semelhantes, não se saberia discernir o homem do animal; se não fossem dessemelhantes, não se saberia discernir um homem de outro. Todas as coisas se ligam por certa semelhança.

Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma idéia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele me disse de novo, nem é de grande proveito minha ignorância pessoal, mas em geral aprendo a minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto.

Quantas condenações vi mais criminosas do que o crime?

Extraídas do livro Os Ensaios. Penguin Companhia das Letras. São Paulo: 2010.

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