Citações: Hans Vaihinger

5 de junho de 2014

1)No campo teórico, prático e religioso, descobrimos o que é correto na base e com auxílio do que é falso.

2)Nas ficções práticas, a eliminação de tais elementos intermediários é bastante fácil: cumprindo-se a finalidade, eles são descartados. Mas não é da psique em si que são tirados, eles saem apenas das operações do pensamento. Isso ocorre, por exemplo, no caso da ficção da liberdade: o juiz penal simplesmente usa essa ficção para poder formular a sentença penal. A finalidade é a sentença penal e esta se obtém pela ficção de que o homem, qual seja, o criminoso in specie, é livre. Não importa a questão de se o ser humano é de fato livre. O elemento intermediário da liberdade é eliminado, assim como se elimina em cada silogismo o termo intermediário. O juiz chega à conclusão: todo homem é livre, e caso tenha contrariado a lei, deve ser punido. A é um homem livre e cometeu um delito; em consequência, está sujeito a pena. Em um segundo passo, A é subsumido no conceito de homem livre, depois no da penalidade. A ideia de liberdade, contudo, aqui sai de cena: serviu apenas a tornar a sentença possível. Entretanto, se o homem é livre em geral, tal premissa não é examinada pelo juiz; factualmente, a premissa representa apenas uma ficção que serve para chegar à conclusão final. Pois, se não punissem os criminosos, não existiria organização de Estado. Foi em vista dessa finalidade prática que se inventou a ficção teórica da liberdade.

3)A construção conceitual da matéria está composta por elementos assaz contraditórios. No entanto, sendo ficção, ela presta os melhores serviços ao pensamento científico. Por isso, seria absolutamente errado acompanhar Berkeley e, após admitir a impossibilidade objetiva desses conceitos, querer em seguida descartá-los como inúteis. Tal passo obedeceria ao mesmo preconceito que domina até hoje a filosofia; como se algo que é totalmente contraditório pudesse carecer por esse motivo de valor. Muito pelo contrário, esses conceitos contraditórios, do ponto de vista da lógica, são os mais valiosos. Muitos dos conceitos básicos das ciências são ficções: não se trata de apartar essas contradições – que é empresa vã -, mas de mostrar que elas são úteis e profícuas para o pensamento. Não se deve cultivar o preconceito de apenas ver no logicamente não contraditório o que pode ser fecundo logicamente. Consentir com essa posição levar-nos-ia – já que tantos conceitos básicos em todas as ciências não contraditórias – a concluir com Agrippa von Nettesheim que todas as ciências não têm valor.

4)Além da regra de precaução de não confundir as ficções com a realidade, podemos ainda ressaltar que cada ficção deveria ser capaz de se justificar, isto é, ela precisa comprovar-se pelo que produz em favor do progresso da ciência.

5)Tudo que é teórico é apenas um meio a serviço do prático.

6)Conhecemos apenas o relativo.

Extraídas de A filosofia do como se, de Hans Vaihinger. Chapecó: Argos, 2011.

Número de Visitas 305

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *