Carta a um jovem professor

25 de novembro de 2014

Em resposta às indagações que me fizeste, segue minha resposta.

Irás conviver com uns tipos frequentemente presunçosos. Não que isso seja um pecado em si. O problema é que raramente fazem jus à vaidade que ostentam.

Verás que boa parte nada tem nada a dizer que seja seu. Simplesmente repetem, sem mais, os que os outros disseram. Também aí não há mal algum, se o fazem honestamente, precisamente.

Notarás que, não raro, citam e falam de autores que jamais leram ou leram mal.

Perceberás que muitos passam a vida a escrever sobre um dado autor, sem tirar nem pôr, como se o leitor não fosse inteligente o bastante para compreender suas obras diretamente, como se ele fosse o profeta de uma nova religião.

Observa que os mais fracos temem o brilho alheio e talvez te persigam se não participares do grupo numeroso dos medíocres. Esses são especialmente perigosos: tratam-te bem, mas tramam contra ti na escuridão.

Não te impressiones com o número de páginas de certos currículos, pois encerram, por vezes, pura charlatanice. Nota, antes, que o conhecimento está em toda parte, aí incluído o conhecimento dos não especialistas. Que especialistas não são necessariamente as pessoas mais indicadas para tratar de certos temas. Que, como diz Feyerabend, a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anárquico teórico é mais humanitário e mais apto a estimular o progresso de que as suas alternativas que apregoam lei e ordem.

Vê que há, para além da fama de alguns e dos modismos de escola, dois tipos de autor, essencialmente: os que têm e os que não têm o que dizer. Que encontrar os que têm o que dizer é obra de garimpeiro, e, pois, exige árdua pesquisa.

Observa que, não raro, temos mais a aprender com o aluno do que o aluno com o professor. Que, como dizia Paulo Freire, quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.

Evita fundar ou fazer parte de escola, qualquer escola; sê independente; afinal, nesse mundo plural, complexo e multifacetado, que tentamos reduzir à nossa pobre cosmovisão, cabem todos: sábios e ignorantes, trabalhadores e vagabundos, senhores e escravos, médicos e curandeiros, pastores e feiticeiros, damas e prostitutas, crentes e ateus, moralistas e libertinos, fanáticos e criminosos.

Tolera e fomenta, pois, a liberdade, ao invés de manietá-la. O mundo será melhor se o ponto de vista do outro divergir do teu, e não o contrário. Evita, como recomenda Nietzsche, o mau gosto de pretender que tuas opiniões sejam aceitas pelos outros, teus alunos e mestres, inclusive.

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2 Comentários

  1. Obrigada Prof. Paulo Queiroz

    Fco feliz em poder desfrutar a leitura desta carta, sem dúvida nos servirá para uma grande reflexão, cujo conteúdo dotada de tamnaha sabedoria que nos impulsiona a uma auto análise como cidadãos.
    Nos orienta a termos atitudes coerentes no sentir, pensar e agir dentro desta sociedade tão vulnerável,
    Gostaria tanto saber se a sabedoria leva o homem à solidão,.

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