A Bíblia é um livro fabuloso

13 de fevereiro de 2014

A Bíblia é um livro fabuloso, mítico [Do gr. m~thos, ‘fábula’, pelo lat. Mythu.].

E o é por conter todos os elementos de uma fábula, quer porque recorre a figuras míticas (deuses, anjos, demônios, heróis, gigantes, dragões, animais fantásticos etc.), quer porque apela, frequentemente, à linguagem figurada (metáforas, parábolas etc.), quer porque não retrata fatos reais, mas imaginários, quer porque narra grandes histórias, quer porque encerra lições morais. E como toda fábula, admite diversas interpretações.

Mas, por se tratar de uma coletânea de contos míticos/literários, certamente o modo menos adequado de entendê-la é interpretá-la ao pé da letra, como se os fatos nela narrados tivessem realmente (historicamente) acontecido ou acontecido exatamente como constam dos livros. Como diz Paulo, a letra mata, mas o espírito vivifica (2 Coríntios 3).

Justamente por isso, quando se diz que “a fé remove montanhas” (1 Corintíos 13), não se quer dizer que, se quisermos, removermos as montanhas do Himalaia para a Bahia, por exemplo, mas que, se acreditarmos em nós mesmos e em Deus, somos capazes de vencer dificuldades aparentemente invencíveis. Se, ao contrário, nos faltar a fé em nós mesmos e em Deus, perderemos a batalha antes mesmo de começá-la. Quando se afirma que é “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (Mateus 19:24), não se pretende que os ricos se desfaçam de todos os seus bens em favor dos pobres, pois seria estupidez e em nada os ajudaria, mas condenar a avareza e tudo que isso implica: trabalho escravo, salários aviltantes, indiferença para com o outro etc. “E o rico deve orgulhar-se caso passe a viver em condição humilde, porque o rico passará como a flor do campo” (Tiago 1:10).

Assim, não é preciso apelar à ciência para perceber que jamais houve, tal como descrito, um Adão e Eva que foram tentados por uma serpente, um Jonas que passou três dias e três noites nas entranhas de um peixe, nem uma torre de Babel que deu origem aos diversos idiomas que conhecemos. Tampouco existiu quem vivesse tantos anos: Adão, 930 anos [Gn 5:5]; Sete, 912 [Gn 5:8]; Enos, 905 [Gn 5:11]; Cainã, 910 [Gn 5:14]; Maalalel, 895 [Gn 5:17]; Jarede, 962 [Gn 5:20]; Metusalém, 969 [Gn 5:27]; Noé, 950 [Gn 9:29] etc. E a jumenta de Balaão nunca falou com ele [Nm 22:28-30], exceto num sentido figurado.

Como demonstra Joseph Campbell, tudo isso é mitologia recontada a partir de mitos mais antigos. O mundo – escreve Joseph Campbell – está repleto de mitos de origem e todos são falsos do ponto de vista dos fatos. Interpretar um poema como crônica da realidade é – para dizer o mínimo – perder o essencial. O antigo testamento não resultou do talento literário de Deus, mas do homem e, como tal, não da eternidade, mas de uma época e, concretamente, de uma época muito conturbada.1

A religião (judaica, cristã, islâmica, hindu, budista etc.) é, pois, a própria mitologia com outro nome. Ou, ainda, mitologia é a religião dos outros (povos e indivíduos).

Em suma, os livros tidos por sagrados não são obra de Deus, mas obra dos homens, pois foram produzidos por homens e para os homens; e são os homens, e não Deus, que os pretendem sagrados e combatem por isso. Os deuses (ao menos os que conhecemos) são, enfim, criados à imagem e semelhança do homem, e não o contrário. E isso também vale para o Deus de Espinosa e outros tantos.

Apesar disso, uma parte importante dos crentes interpreta os textos religiosos literalmente, isto é, como se os fatos tivessem ocorrido precisamente como descrito. E muitos estariam dispostos a morrer e matar pelo “Senhor dos Exércitos”.

Por que é assim? Por que se toma tais fábulas tão ao pé da letra?

Há muitas explicações possíveis.

A primeira: em geral, só levamos a sério a religião que nos foi ensinada. Não cultuamos deuses ou religiões que desconhecemos ou que conhecemos só por ouvir falar. Somos indiferentes e, por vezes, desprezamos a religião alheia, tomando-a como superstições ou crendices. Assim, por exemplo, é comum ver, aqui no Brasil, evangélicos condenarem o candomblé e a umbanda. A religião é, por conseguinte, um elemento cultural: aprendemo-la como aprendemos nosso próprio idioma.

A segunda: pessoas há com predisposição para acreditar em Deus, e outras não. As primeiras seriam crentes em qualquer lugar do mundo: budistas, se nascidas na China; xintoístas, se socializadas no Japão; muçulmanas, se árabes. Também por isso, não raro associam tudo que lhes ocorre à providência divina.

A terceira: somos herdeiros de uma cultura que desconhece ou abomina o pensar crítico, especialmente quando se trata de questionar a religião dominante. Somos produtos de uma socialização/educação fortemente opressora. Nesse contexto, ser ateu ou agnóstico soa como transgressão ou maldade. E a religião é uma forma poderosa de manter o status quo.

A quarta: assim, frequentemente as pessoas carecem de senso crítico e jamais questionaram a tradição em que estão inseridas, especialmente a tradição religiosa, inclusive porque tal é, em geral, condenado. O verdadeiro crente é obediente e não duvida. “Mas aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado”.
(
Romanos 14:23).

A quinta: a fé significa para o crente, em geral, resignação, bem-estar e, eventualmente, sucesso e prosperidade. Nada se tem a ganhar, em princípio, sendo ateu ou agnóstico.

A sexta: no fundo, é irrelevante, para quem crer, se as escrituras são ou não uma fábula, se reproduzem ou não mitos antigos. O que de fato importa não é propriamente a fé, mas o que se pode obter por meio dela. Não se ama um Deus fraco; ama-se sempre um Deus poderoso, isto é, que pode recompensar (vida eterna etc.) a obediência e o sacrifício e intervir em nosso favor. “Deus é fiel para os que o amam e guardam os seus mandamentos” (Deuteronômio 7:9). Afinal, não amamos algo por ser verdadeiro, mas por aumentar o nosso sentimento de poder.

A sétima: a fé funda-se no medo, medo de ser mal visto, de ser excluído socialmente, de queimar no fogo do inferno e tudo mais. É preciso ser temente a Deus.

A oitava: a religião é uma forma importantíssima de exercício de poder. Quem fala em nome de Deus pode praticamente tudo ou quase tudo. Obedecer a Deus é, pois, obedecer a quem pode legitimamente invocar a sua autoridade e agir em seu nome.

A questão mais relevante, porém, parece residir em que o elemento mítico está presente em todas as formas de expressão do homem, e não só na religião: a linguagem, a música, a literatura, a política, o direito e a moral. Ou seja, parafraseando Ernst Cassirer, cabe dizer: “o homem é um animal mítico”.

Afinal, como escreveu Max Müller, “mitologia, no mais elevado sentido da palavra, significa o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual”.2

 

 

 

1As Máscaras de Deus. Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 2004, p. 87.

 

2Apud Ernst Cassirer. Linguagem e mito. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 19. De acordo com Cassirer (cit., p. 64), “a consciência teórica, prática e estética, o mundo da linguagem e do conhecimento, da arte, do direito e da moral, as formas fundamentais da comunidade e do Estado, todas elas se encontram originariamente ligados à consciência mítico-religiosa”.

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13 Comentários

  1. Ser crente, assim como ser ateu, é ser burro. Não temos certeza de nada nesse mundo. Isso pode ser muito bem uma ilusão. Por isso sempre digo: sou agnóstico teísta, não acredito em Deus, mas não nego a possibilidade “Dele” existir.

  2. Até aqui uma observação sincera e que nos merece, senão perfilar, ao menos refletir que é a consideração perspicaz a do Eugênio. Ocorre que os textos do autor (PQ), quando acerca da Inspiração da Bíblia por Deus e a própria existência deste (Rei do Universo), intencional ou irrefletidamente tenta o jurista levar o leitor que professa fé em Jeová, no sentido justamente ao contrário. Ou seja, que a maioria acredita em DEUS, mas que admita a possibilidade de não existir.
    Todavia, faço questão de sublinhar que acredito que tenha de fato e literalmente descido fogo do céu após a oração de Elias (1. Reis 18). Da mesma forma em que creio que o SENHOR DEUS transportaria o monte Evereste para o lugar do Morro do Pai Inácio na Chapada Diamantina. Ocorre que DEUS não fará isto nem por desconfiança do professor Paulo Queiroz e nem por confiança plena de Rogério Lima. Mas, saibamos nós que a palavra da lei do livro por excelência (a bíblia sagrada) transcende ao tempo. De modo que hoje sim, tem-se admitido o sentido metafórico. Ou seja, eu tenho fé, igual à de remover montanhas, de que DEUS existe e ama a mim da mesma forma que ama aos que nele não crer com a mesma fé metafórica de remover montes. A fé em não acreditar também é uma fé talvez maior que a de quem não crer.
    De mais, cumpre dizer que depois que o criador lança algo, todos ou alguns entendem como fácil criar tal coisa. Como por exemplo, PQ defende uma belíssima tese do princípio da insignificância que talvez após a sua argumentação inigualável, muitos achem aquilo uma coisa interessante, mas não extraordinária, a diminuindo. Da mesma forma, o Apóstolo Paulo escreveu que: ainda que falasse língua de anjos e de homens, sem amor seriamos um nada. Ainda que tivéssemos fé a ponto de transportar montes de nada nos adiantaria viver, se não praticássemos o amor soberano e paciente. (1. Coríntios 13). Isto foi magnificamente extraordinário e atemporal. Ocorre que alguns acham que não seja bem assim e minimiza. Finalmente, toda esta discussão só aumenta exponencialmente a minha fé no querido mestre Jesus Cristo, Ieshua Ramahia e no DEUS todo poderoso El Shadai.

  3. Eugênio, vc tolera um câncer? Não, né? Pois é, para nós a ideia de deus é um câncer que deve ser exterminado e, por ser um câncer, é causadora do mal e do sofrimento. Esse negócio de ser agnóstico/teísta e acreditar que espiritualidade e ciência podem caminhar juntos tem um tem nome: pseudociência. vc está no site errado. Bjos.

  4. Marcelo, considero, eu, que, “câncer” são aquelas pessoas que usam a palavra de forma errada, pessoas preconceituosas que não admitem outros pontos de vista; pessoas como você, meu caro. Abraço.

  5. Citação: “Ser crente, assim como ser ateu, é ser burro. Não temos certeza de nada nesse mundo”.

    Você, pelo visto, além de ter certeza da burrice alheia, está convencido da verdade apodítica do próprio discurso, o que é irônico, pois disse “não temos certeza de nada nesse mundo”. Se não há certeza de nada, então seu discurso pode ser falso, e a razão pode estar ou com os crentes ou com os ateus. Como disse Gadamer: “A alma da hermenêutica consiste em que o outro possa ter razão”. Se se nega que o outro possa ter razão, então se nega a entrar no diálogo, nega se deixar corrigir pelo círculo hermenêutico, nega a deixar o outro lhe diga ao (está fechado para o diálogo), e nega porque convencido da própria verdade, uma verdade solitária, por isso arbitrária, afastada do paradigma da intersubjetividade.

    Afirmar a relatividade de todos os discursos, e ao mesmo tempo não assumir a relatividade do próprio discurso, é mover-se em discursos contraditórios.

    Não pretendo, com esses comentários sobre a relatividade, afirmar que a discussão sobre a verdade é irrelevante, pois não é. Agora, quando alguém nega que verdades existam com afirmações que carregam a pretensão de verdades absolutas, parece-me relevante apontar ele contra ele, pois a crítica que faz a outros serve a si mesmo.

  6. Não há trabalho mais penoso do que aquele exercido pelos ateus: provar a todo custo a inexistência de Deus e veracidade de suas palavras. O problema maior não é esse, o problema maior é se preocupar demasiadamente com a fé alheia, com a crença dos crentes (crente aqui é aquele que acredita, não somente o evangélico), é por isso que considero os ateus a classe que mais fala em Deus, falam muito mais que qualquer cristão de carteirinha. Por via contrária, a ideia de DEUS vai se perpetuando, e isso com a ajuda ímpar dos ateus. Vida longa aos ateus!

  7. Citação: “considero os ateus a classe que mais fala em Deus”.

    Afirmação metonímica, generalizante, logo, sem fundamento.

    Citação: “Não há trabalho mais penoso do que aquele exercido pelos ateus: provar a todo custo a inexistência de Deus e veracidade de suas palavras”.

    Dentre as explicações sobre a origem da vida, sobre a compreensão do Universo, quais são as mais prováveis? Entre, de um lado, “serpentes falantes”, “juízo final”, “demônios”, “alma”, “salvação da alma”, “espírito”, “juízo final”, e, do outro, Big Bang, Biologia evolutiva, antropologia (religião como fenômeno cultural), filosofia (religião é apenas linguagem, apenas um discurso), não me parece penoso compreender qual a mais provável, qual pode ser a verdade possível.

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