70 aforismos

27 de maio de 2013

1)Existem dois tipos de autor: os que têm e os que não têm o que dizer. Encontrar os que têm o que dizer é trabalho de garimpeiro.

2)Um bom livro não depende da qualidade nem da quantidade de textos e autores citados, mas de como os utiliza.

3)O modo como se conta uma história é mais importante do que a história mesma. O mesmo vale para música etc.

4)Com a idade o que ganhamos em experiência perdemos em criatividade.

5)Trecho de um depoimento judicial: “Ele é um homem extremamente generoso, honesto, excelente pai, filho e esposo” – disse a testemunha a propósito de um criminoso reincidente. E não mentia.

6)A vida é mais fácil quando se é superficial.

7)Nenhuma virtude é louvável em si mesma; nenhum vício ou pecado é em si mesmo condenável; tudo depende de como lidamos com isso.

8)Amar é encontrar a si mesmo no outro.

9)Pessoas que amam são pessoas perigosas.

10)Não existem ações absolutamente desinteressadas; desejamos, ao menos, um mínimo de gratidão.

11)A monogamia é uma violência.

12)Disse o amante: “te amo, te amo, te amo, incondicionalmente; e completou: “claro, desde que continues assim”.

13)Conhecimento produz angústia; por isso preferimos, não raro, a ignorância.

14)“Promete ser fiel e amá-lo para todo o sempre, na riqueza, na pobreza, na doença?”, “Não, padre; tenho horror à mentira”, disse a noiva.

15)O amor tudo perdoa; a traição, inclusive.

16)O preconceito, como a ingratidão, é um déficit de afetividade.

17)Devemos amar (ou odiar) as pessoas honestamente, isto é, como elas são, não como gostaríamos que elas fossem.

18)“Eu só quero a paz, a justiça e um mundo sem violência!”, gritou o terrorista antes de detonar a bomba.

19)E como o leão, capturado em plena selva, era bravo, para domesticá-lo, arrancaram-lhe os dentes e unhas; e o acorrentaram e o torturaram; e assim o animal se tornou bom e manso. Os penalistas chamam isso de ressocialização.

20)“Somos todos iguais”, diz a lei; “Não! Mil vezes não!”, protesta a natureza.

21)Existem mil formas de trair alguém; o sexo não é a única nem a mais importante.

22)Justiça e vingança designam o mesmo sentimento.

23)O contrário da vingança não é a justiça, mas o perdão.

24)Definição de filósofo: a mais presunçosa criatura humana, pois pretende tudo reduzir a conceitos: verdade, vontade, representação, ser, substância, mônada, espírito absoluto etc.

25)Filósofos são, em geral, maus escritores.

26)Tudo que os homens dizem sobre os deuses, a favor ou contra, é arbitrário e inevitavelmente antropomórfico.

27)Se existissem deuses, a crença divina não seria uma alternativa, mas uma necessidade, como o batimento cardíaco ou a respiração.

28)Não existem fenômenos religiosos, mas apenas uma interpretação religiosa dos fenômenos (Nietzsche revisto).

29)Um chimpanzé me confidenciou que seus deuses têm a forma de chimpanzés e são incrivelmente poderosos. O mesmo foi-me dito por um babuíno, um cão e um gato.

30)Um porco me confessou que tinha horror à religião humana, pois sempre fora tratado como um cachorro.

31)“Foi Deus que, na sua infinita misericórdia, me salvou desse terrível acidente”, disse o primeiro sobrevivente; “seria muita pretensão da minha parte que Deus, para me salvar, tivesse de sacrificar tanta gente inocente”, retrucou o segundo.

32)Falar com Deus é a expressão máxima de vaidade.

33)Religião é mitologia do presente; mitologia é religião do passado.

34)Quão deprimente é ver um pastor afrodescendente profanar as religiões africanas!

35) religiosidade (ou sua ausência), por si só, não faz ninguém melhor nem pior.

36)“Porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus”, disse o homem; “quanta presunção!”, sibilou a serpente.

37)Disse um cristão: “só há um Deus: Jesus Cristo!”; ao que um muçulmano retrucou: “realmente só há um Deus; mas esse Deus é Alah, e Maomé é seu profeta!”; enquanto um judeu pensava consigo mesmo: “nosso Deus é mais antigo”. E todos tinham e não tinham razão.

38)A fé em Deus prova a fé mesma, não a existência de Deus. E ainda que a fé provasse a existência de Deus, restaria a pergunta: qual Deus (ou Deuses)?

39)Um anjo me confidenciou que, depois de condenado, Lúcifer, arrependido, invocou Mateus 18:22 – em que Jesus diz a Pedro que não se deve perdoar sete vezes, mas setenta vezes sete – e que Deus o perdoara. O perdão, no entanto, foi desde então mantido em segredo, pois, sem o Diabo, ninguém O levaria a sério. Além do mais, uma boa fábula não tem a menor graça sem um vilão digno desse nome. O mesmo teria ocorrido com Adão e Eva.

40)Frequentemente, o “amar o próximo como a ti mesmo” não inclui as pessoas muito próximas, sobretudo quando não compartilham do mesmo credo.

41)A isenção do juiz, quer dizer, equidistância relativamente às partes, mais do que uma exigência de justiça, é uma questão de saúde mental.

42)Quem adora a Deus, adora, em verdade, a si mesmo.

43)A religiosidade emburrece; o fanatismo embrutece.

44)Quem nos salvará da santidade dos santos? (Freud revisto)

45)Convém confiar e desconfiar de tudo, sobretudo de nós mesmos.

46)O homem verdadeiramente honesto o é por puro orgulho.

47)Eis uma sentença sapientíssima: o homem é a medida de todas as coisas que são e não são (Protágoras de Abdera).

48)Um homem absolutamente sincero é absolutamente insuportável.

49)Não se ama o dinheiro pelo que ele é, mas pelo que se pode obter por meio dele. Talvez isso valha para tudo que nos diz respeito.

50)A interpretação é uma fotografia da alma do intérprete.

51)O sentido das coisas (textos, fatos, provas etc.) não é dado pelas próprias coisas, mas por nós, ao atribuirmos um dado sentido num universo de possibilidades, aí incluída a falta de sentido, inclusive.

52)A interpretação é o ser do direito; e o ser do direito é um devir.

53)O que quer que possa ser pensado, por quem quer que possa ser pensado, como quer que seja pensado, sempre poderá ser pensado de diversas outras formas, e, pois, conduzir a resultados também diversos.

54)Os limites da interpretação são dados por uma outra interpretação.

55)Quem é fiel a si mesmo não trai a ninguém, nem cria falsas expectativas nem ilusões (Hamlet revisto).

56)O fundamento último de todo fundamento carece de fundamento.

57)Só devemos romper o silêncio com algo melhor que ele; se e quando houver.

58)A citação deve ter um duplo sentido: valorizar o que se diz e valorizar a citação mesma.

59)A única ou a resposta correta é a versão jurídico-filosófica do monoteísmo.

60)Quem, à semelhança de Narciso, advoga semelhante ficção (a única resposta correta) oculta o essencial: “eu sou a resposta correta”.

61)Em geral superdimensionamos o consciente e o dito quando o mais importante parece ocultar-se, caprichosamente, no inconsciente e no não dito.

62)O problema não está, em princípio, na religião ou sua falta, mas no modo como lidamos com a sua presença ou ausência.

63)No fundo, todo conhecimento humano – e não só a religião – é uma ficção, útil e necessária a uma determinada espécie – o homem.

64)Se Deuses existem, certamente eles nada têm a ver com o textos (humanos) supostamente sagrados.

65)Para o crente, a questão sobre se Deus existe (ou não) é, no fundo, um problema menor, irrelevante. O que de fato importa é o quanto de bem-estar, segurança, paz etc., a ideia de Deus implica. Talvez o mesmo valha, mutatis mutandis, para todo o conhecimento humano e o quanto de verdade ele encerra.

66)Sobre a homofobia. Por que nos incomodar com o reconhecimento de direitos que não nos trazem prejuízo algum, mas, ao contrário, implicam a inclusão do outro? Por que nos arrogar advogados de Deus, se Ele, que é onipotente, onipresente e onisciente, não precisa de nós, embora precisemos (?) Dele? O que quer que os homens falem sobre Deus, a favor ou contra, é de si mesmo que falam (Nietzsche).Por que não somos minimamente honestos e reconhecemos que, a pretexto de atuar em nome de Deus, agimos, em verdade, em favor dos nossos próprios – e nada divinos – interesses? Que segredos oculta semelhante perversão?

67)Assim como o ateu não pode pretender impor seu ateísmo a alguém, tampouco pode fazê-lo o crente, relativamente ao seu credo.

68)Todo conhecimento é ficção e perspectiva, mesmo quando, pretendendo superá-las, acreditamos que não o são.

69)Apesar de não existir um direito a-histórico, atemporal, existem pessoas que se pretendem a-históricas e atemporais, isto é, de tal modo conservadoras ou reacionárias que estão em permanente conflito com os valores de seu tempo.

70)Arrepender-se de algo é raro; mais frequentemente lamentamos um desfecho contrário às nossas expectativas.

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3 Comentários

  1. Prof. Paulo Queiroz,

    Em meu trabalho acadêmico, tenho me dedicado a criticar a falácia da resposta correta, dentre outras coisas, de modo que os aforismos 59 e 60 são os que mais me agradam.

    Há uma passagem de Jeremy Waldron baseada em Hobbes e endereçada a Dworkin que pode ser somada ao aforismo 69:

    “We cannot play trumps if we disagree about the suits. Or if we do, we are open to what I regard as the unanswerable cynicism of Thomas Hobbes […]: for people to demand that we treat their theory of rights as the one that is to prevail is ‘as intolerable in the society of men, as it is in play after trump is turned, to use for trump on every occasion, that suite whereof they have most in their hand'” (WALDRON, Jeremy. Law and Disagreement. Oxford: Oxford University Press, 2004, p. 12).

    Acabo de ter um artigo aceito para publicação e gostaria de encaminhá-lo ao senhor. Isso seria possível? Seria um prazer conhecer sua opinião sobre meus argumentos.

    Com admiração,
    Vinicius

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