Caríssimos eleitores, se é que os tenho:

Sou candidato, candidato a Presidente da República, e peço o seu voto.

Reconheço que minhas chances são mínimas, próximas de zero, mas o que isso importa?

Não tenho recursos, não compro votos (falta-me dinheiro, inclusive), não prometo, não faço alianças com a canalha, nem quero vencer a qualquer preço.

Talvez perguntem: o que isso tem de novo? Nada. Afinal, todos os candidatos, de ontem e de hoje, dizem sempre a mesma coisa, ainda que em termos para lá de vagos: prometem um país forte, competitivo, desenvolvido, igual, justo etc. Enfim, prometem essas baboseiras que já sabemos de cor e salteado.

Mas eu sou diferente – ou estarei mentindo para mim mesmo? -.

Para começar, eu nada prometo. Prometo não prometer. Chega de promessas! Devemos desconfiar do homem que faz promessas; e quanto mais seriamente o fizer, maior deve ser nossa desconfiança.

Desconfiemos, pois, inclusive de nós mesmos, principalmente de nós mesmos. Aliás, como eu poderia prometer algo se jamais vivi a experiência de ser presidente? E, ainda que tivesse essa experiência, quem me garantiria que as coisas seriam diferentes de como foram? Como fazer promessas sobre algo que desconheço completamente? Parafraseando Heráclito, cabe dizer que o homem que promete não é o mesmo que cumpre ou descumpre o prometido.

Além disso, como eu poderia prometer se sou um mistério para mim mesmo? Que sei de mim? Nem sequer consigo repetir minha assinatura. O que cada um de nós sabe sobre si mesmo? Somos estranhos em relação a nós mesmos. Logo, ninguém pode dizer que agirá assim ou assado numa dada situação, sobretudo em situação extrema ou desconhecida. Quem o fizer, ou é um mentiroso ou um tolo ou ambos.

Quantos homens bons e santos se revelaram cruéis e impiedosos numa dada situação? Quantas revoluções foram motivadas pelos melhores propósitos e, não obstante, banharam a terra de sangue? Quantos crimes foram praticados em nome das palavras mais santas? Quanta maldade já foi praticada em nome de Deus, da justiça e da liberdade etc.?

O “eu” é uma ilusão. Como parte da natureza, estamos permanentemente em transformação. Aquele que escreve não é o que lê, o que dorme não é o que acorda, o que ensina não é o que aprende, o que comanda não é o que obedece.

O justo pode ser injusto, o cruel, bom, o santo, monstruoso, o pio, ímpio, o pacífico, violento, o crente, ateu, e o ateu, crente. Há aí contradição? Não! Contradição é apenas uma palavra para nomear o que não sabemos explicar. É só um expediente do cérebro para nos dar algum conforto, pois temos horror ao desconhecido, ao inexplicável.

Mas, falemos, agora, de coisas mais concretas.