Recentemente a imprensa noticiou que uma mulher matou e esquartejou o próprio marido, possivelmente em razão de ciúmes.

Há um provérbio que diz que “quem ama, não mata”.

De acordo com o citado provérbio, portanto, a mulher teria agido assim porque de fato não amava. Será?

Afinal, o que é o amor?

Não há dúvida – esse é seu lado bom – de que o amor é um sentimento maravilhoso de sentir-se bem e querer bem a alguém, de querer estar com essa pessoa que se ama, de querer tocá-la, abraçá-la, protegê-la, adorá-la etc.

Mas o amor é também vontade de possuir a pessoa amada, de mantê-la sob certa vigilância, de ser retribuído com igual carinho, gratidão etc..

E mais, amar é vontade de não querer compartilhar a pessoa que se ama com mais ninguém; é desejo de exclusividade. Tanto é assim que, por vezes, não admitimos sequer a possibilidade de que ele ou ela pense em outra pessoa ou mesmo possa sonhar com ela ou falar dela.

Queremos, é verdade, o “melhor para ele ou ela”, mas quem decide, sobre isso, não é ele ou ela, mas nós.

Enfim, por mais que pareça decepcionante ou pessimista, amar é, em última análise, vontade de poder, vontade de fazer de alguém parte de nós mesmos, ações e pensamentos.

Suponho que mesmo casais mais liberais que frequentam ambientes de swing e semelhantes alimentem esse sentimento de posse e de exclusividade. Quer dizer, mesmo nesses casos extremos existe uma relação de fidelidade e exclusividade, visto que nem tudo é aí permitido ou só é permitido o que é objeto de prévio conhecimento, consentimento e reciprocidade entre os parceiros.

Postas as coisas assim, não surpreende que uma mulher supostamente traída pelo marido tenha decidido matá-lo e esquartejá-lo, pois o amor nos faz (potencialmente) possessivos, neuróticos, violentos etc. Uma pessoa que ama é uma pessoa perigosa.

Evidentemente que nem todos reagem ao fim de uma relação matando seu parceiro, tampouco mutilando-o. Mas cada um, a seu modo, fere ou mata, imaginária ou simbolicamente, seus parceiros de muitas formas distintas.

O que é, afinal, o divórcio senão a morte simbólica da pessoa que tanto amávamos?

Queiramos ou não, quem ama, mata; e mata por amor.