Porque já as eleições dos “nossos” representantes são realizadas de modo a institucionalizar o crime, pois os grupos econômicos, ao patrocinarem a eleição de presidente, governadores, prefeitos etc., assim o fazem, como é natural, sob a condição de obterem financiamentos graciosos, participarem de licitações premiadas, privatizarem o espaço público, multiplicando lucros;

Porque num tal contexto, a política passa a constituir extraordinário atrativo para criminosos profissionais, em geral burocratas medíocres, desqualificados moral e tecnicamente, sem perspectiva fora da política; consequentemente, aqueles que prezam por seu nome e dignidade a evitam sistematicamente;

Porque certos partidos políticos passam a funcionar, assim, como autênticas quadrilhas, cujos membros são motivados por interesse/retorno puramente econômico-financeiro, por isso que trocam de legenda constantemente;

Porque o sistema representativo é um engodo que conta com a participação do próprio eleitor, que não raro exige, em troca do voto, algum proveito, de modo que o voto constitui apenas um expediente para legitimar e perpetuar o crime, afinal os eleitos não representam o eleitorado, mas os seus próprios interesses e os interesses dos grupos econômicos que os patrocinam;

Porque, apesar das fraudes, insistimos em perpetuar determinados criminosos no poder, e a tudo assistimos passivamente; e vemos a política com absoluta indiferença. De certo modo, no Brasil criminosos pobres vão para as cadeias e criminosos ricos fazem carreira política;

Porque a polícia, que deveria, junto ao ministério público, formar instituição única, está subordinada ao poder executivo, de sorte que são prováveis investigados (governadores, prefeitos etc.) que em última análise orientam as investigações;

Porque os criminosos políticos estão protegidos por um sem número de privilégios (foro privilegiado, imunidades parlamentares etc.) que os tornam grandemente imunes às investigações;

Porque a corrupção política traduz a nossa própria hipocrisia, a nossa tendência ao jeitinho; afinal, corrupção é de algum modo interação/acordo entre corruptor e corrompido, entre eleitor e eleito;

Porque somos obrigados a votar, quando votar é um direito e não um dever, pois o eleitor há de ter a liberdade de votar em quem quiser, quando e se quiser, consciente e livremente;

Porque punir criminosos, embora necessário, não é o mais importante; o mais relevante consiste em identificar as estruturas de poder que produzem e fomentam o crime e mudá-las radicalmente, pois problemas estruturais demandam intervenções também estruturais e não apenas intervenções sobre indivíduos;

Porque insistimos em preservar instituições absolutamente desnecessárias: senado federal, câmara distrital etc; e temos uma câmara dos deputados com um número excessivo de representantes, tecnicamente desqualificados em sua maioria, como se quantidade significasse mais qualidade ou mais representatividade;

Porque, em vez de enfrentar os problemas em suas causas, tentamos combatê-las em suas consequências, tardia, burocrática e simbolicamente; e isso equivale a não combatê-las;

Porque temos um Estado excessivamente burocrático, que tudo pretende resolver por meio de leis, demagogicamente;

Porque multiplicar leis não significa evitar novos crimes, mas multiplicar novas violações à lei (Beccaria); e as leis desnecessárias enfraquecem as leis necessárias (Montesquieu);

Porque mais leis, mais juízes/tribunais, mais conselhos, mais prisões etc., pode significar mais presos, mas não necessariamente menos delitos;

Porque o povo brasileiro acredita ser livre, mas está enganado: é “livre” apenas durante as eleições dos membros do executivo e do parlamento, pois, eleitos os seus membros, ele volta à escravidão, é um nada (Rousseau); é que a participação popular se limita ao sufrágio a cada quatro anos; mas eleitos “seus” representantes, não se tem qualquer controle sobre seus atos, e o cidadão, convertido em objeto e não sujeito da política, só poderá expressar sua indignação nas eleições seguintes;

Porque a releição favorece grandemente esse quadro;

O Brasil é e continuará sendo um país corrupto simplesmente porque está estruturado para sê-lo!