Bom dia, dotô.

Bom dia. Qual é mesmo seu problema?

Na verdade, é uma coisa tão simples que nem precisaria de advogado.

Nesse caso, o senhor veio ao lugar errado, porque isso aqui é um escritório de advocacia, e se não precisa de advogado, não precisava vir aqui.

Desculpe, não foi o que quis dizer.

A questão é a seguinte: estou sofrendo uma perseguição ilegal por parte da polícia e do Ministério Público, que insistem me atribuir a prática de crime que não cometi.

Sei. Esse pessoal da polícia é assim: adora caluniar as pessoas…

É… Eu sou inocente, dotô, nunca fumei droga, não conheço os acusados, não existe nenhuma prova contra mim.

Entendo. Nesse caso, não deve existir nenhum tipo de acusação formal contra o senhor.

O problema, dotô, é que existe, sim, estou sendo acusado de falsificação de documentos, houve inquérito, denúncia, e agora pedido de prisão preventiva. Mas eu sou inocente!

Meu filho, deixe eu ser bem franco com você: eu não gosto de advogar para cliente inocente!

Como assim, dotô?

Eu quero dizer que, num processo penal, o que é menos importa é a inocência do acusado, o que de fato importa é quem o acusa, como o acusa e quem o defende e como o defende, entendeu?

Mas, dotô, eu sou mesmo inocente!

Já lhe disse: não gosto de advogar para cliente inocente: eu gosto é de advogar para cliente culpado. Afinal, o que tem o cliente inocente a oferecer? Nada! Já o culpado pode negociar, propor uma delaçãozinha etc…

Mas, dotô, como fica a presunção de inocência?

Meu filho, isso só existe na lei, é conversa fiada…Seria mais correto falar de presunção de culpa, que é o que temos de desconstruir.

Como assim?

Veja, imagino que você seja casado e sua esposa uma mulher fiel, certo?

Sim, inclusive ela é evangélica, muito devota.

Pois é. Mas, se você receber uma carta anônima, dizendo que sua esposa está tendo um caso com uma certa pessoa e que ela o encontra regularmente no dia tal, que o tem no celular, no facebook, instagram etc., é muito provável que você fique desconfiado e faça uma investigação própria…

Com certeza, dotô. Aliás, se as informações do celular e do face forem confirmadas, eu nem espero o resto, eu meto a porra nela…. Mas eu não entendi o que isso tem a ver com meu caso…

Tem tudo a ver. Veja: o juiz (o delgado, o promotor etc.) é um homem como nós, de carne e osso, que come, bebe, caga, mija e até peida.

É mesmo, dotô? Não tinha pensado nisso.

Pois é, e como tal, ele tem seus preconceitos ou prejuízos, de modo que o só fato de alguém insistir em afirmar que é inocente, que está sendo injustiçado etc., já o irrita, pois ele ouve isso diariamente. Ele pensa consigo mesmo: “Meu Deus, mais um inocente, que ladainha insuportável!”

Se eu lhe dissesse que eu sou o maior advogado do mundo, que nunca perdi uma causa – “exceto meus clientes”, dizendo para si baixinho – possivelmente, você ficaria desconfiado, acharia que sou o oposto do que digo, um charlatão.

É mermo, dotô.

Então, meu filho, se você chega aqui e fica repetindo que é inocente, inocente, inocente, isso acaba produzindo o efeito contrário, de achar que você é culpado. Precisamos ser modestos mesmo em relação à inocência. De mais a mais, criamos ou preferimos sempre a versão que nos é mais favorável, de tal modo que acabamos acreditando que somos de fato inocentes quando somos culpados.

Dotô, o senhor tem razão: eu sou culpado!