Se há exceção, não o sei, francamente.

Mas confesso que em todos os casos em que atuei,

Seja como advogado, seja como procurador, seja como curioso,

Jamais vi os estupradores, os assassinos, os monstros

Que tanto temi e odiei.

Quer olhando-os fundamente, quer observando a própria vítima, em cujo semblante vi, não raro, estampado justo ódio,

Vi sempre, nos olhos,

Nas lágrimas que corriam,

Na angústia e no sofrimento,

Nas ações, boas ou más,

Vi sempre o Homem,

– a melhor e a pior coisa que Deus já criou –

Capaz de gestos grandes e pequenos,

Mas gestos humanos sempre.

Se criminosos e monstros há,

Não os encontro, por mais que os procure

E quando os encontrar, se os encontrar,

Talvez encontre a mim mesmo.

Criados à imagem e à semelhança do Homem

– e, pois, do próprio Criador –

Neles encontro sempre projeção de humanidade.

Talvez nisso resida o grande problema do “sistema penal” – como de resto em todo “sistema”: são “sistemas”, carentes de humanidade.

Quanto menos o Homem compreende o próprio Homem, mais se desumaniza;

Quanto mais o compreende, mais se concilia com ele mesmo e com o Criador;

Porque aos olhos de Deus, o Homem cresce não é pela capacidade de alimentar preconceitos, de separar, de dividir, de castigar,

Mas de compreender, de perdoar, de amar!

(PAULO QUEIROZ, em 20/11/2001, durante audiência criminal).