A guerra das drogas

28 de agosto de 2012

Jornal do Brasil

Por Mauro Santayana

Em editorial de sua edição do dia 23 de agosto, Le Monde adverte contra a espiral da barbárie no México. Durante os últimos seis anos, sob a presidência de Felipe Calderón, calcula-se que 120 mil pessoas foram assassinadas no país, pelos bandos rivais de traficantes de drogas. A maioria absoluta dos mortos nada tinha a ver com o assunto. Os bandos executam em massa para “dar um recado” a seus adversários e intimidar os cidadãos. Em sua lógica pervertida, não ter o lado de uma gangue é estar do lado da outra — ou das poucas forças do governo que os combatem.

Como sempre, os jornalistas são as vítimas preferenciais —e, entre eles, os repórteres fotográficos. Dezenas de profissionais morreram, em atentados bem planejados, e sem qualquer chance de defesa. Ainda que a violência seja endêmica na América Latina — particularmente no México — a situação se agravou nos últimos seis anos, pela decisão do presidente Calderón de militarizar a repressão às drogas. O resultado efetivo foi a contaminação das Forças Armadas pelo poder do dinheiro do crime organizado, e o fortalecimento de suas facções.

O tráfico de entorpecentes se tornou a questão mais grave de nosso tempo

O tráfico de entorpecentes se tornou a questão mais grave de nosso tempo, e está associado à miséria e às desigualdades sociais. Segundo a Brookings Institution, de 40 a 50% da população mexicana vivem, direta ou indiretamente, do tráfico de drogas, que movimenta de 3 a 4% do PIB nacional.

A peste da violência se espalha pelo nosso continente. Domingo último, em Belo Horizonte, quatro jovens foram mortos e outros tantos feridos em chacina atribuída ao tráfico de drogas em um dos bairros da periferia. Os massacres se repetem em todas as grandes cidades brasileiras e começam a ocorrer nas cidades médias e menores do interior.

Não há outra solução que não seja a de legalizar o uso das drogas. Será difícil para a sociedade aceitar que qualquer pessoa adulta vá a uma farmácia — tal como ocorria na primeira metade do século passado — e compre sua droga. Com isso, as substâncias naturais estarão sob controle das autoridades sanitárias, com os usuários recebendo assistência médica e social. O consumo de derivados mais danosos, como o crack, ou das drogas sintéticas, deixará de existir ou será reduzido ao mínimo. Assim, poderemos vencer a grande guerra civil, a do confronto do Estado com os narcotraficantes, que está, pelo número de baixas, sendo vencida por eles.

Em muitos lugares, os criminosos dispõem de armamento superior ao dos policiais. No local do atentado de domingo, em Belo Horizonte, foi encontrada uma submetralhadora. Bazucas e pequenos mísseis já fazem parte do armamento nos morros do Rio de Janeiro.

O consumo e o tráfico de drogas são consequências naturais do sistema capitalista ultraliberal. Os entorpecentes se tornaram uma mercadoria, como qualquer outra, e de valor mais elevado, porque está formalmente proibida. Como a civilização contemporânea perdeu os seus rumos e valores, muitas pessoas, angustiadas, se refugiam em seu consumo ou nas seitas da moda.

Quando o fumo atravessou o Atlântico, houve governos que o coibiram de maneira radical. Na Turquia e na Pérsia, seu uso chegou a ser punido com a amputação parcial do nariz — e mesmo com a pena de morte. Isso não impediu que os países colonizadores europeus ganhassem milhões com o seu comércio, que se estendeu ao mundo inteiro. E foram a França e a Inglaterra que impuseram, mediante duas guerras, o consumo de ópio na China a fim de lucrar com o tráfico — isso há apenas 150 anos (a segunda guerra do ópio ocorreu entre 1856 e 1860).

Hoje, as campanhas educativas têm reduzido o interesse das pessoas, e, ao que se espera, em poucas décadas, o fumo deixará de ser um problema de saúde pública. Os agrotóxicos usados na produção do tabaco rivalizam com as toxinas do cigarro e, provavelmente, estejam matando tanto os produtores quanto os fumantes.

É preciso ter coragem para descriminalizar o uso das drogas, e preparar o país e a sociedade previamente para o grande passo, mas o seu consumo não pode continuar proibido, como hoje. Se as pessoas, conhecendo todos os perigos, quiserem drogar-se, é melhor que se droguem, sob vigilância sanitária. Assim, a sociedade se protegerá contra a violência, que assassina a esmo e a imobiliza pelo medo.

O Brasil pode tornar-se um novo México em sua escalada infinita da violência. É necessário pensar e agir já, a tempo de salvar milhões de vidas, as dos usuários de crack e outras drogas mortíferas e a dos que tombam para que os chefes do tráfico afirmem o seu poder. E impedir que se continue a “lavar” o dinheiro do narcotráfico, obtido no sofrimento dos pais, na enfermidade dos filhos e no sangue dos inocentes.

4 Comentários

  1. Soa. no mínimo, desarrazoado a maneira como o autor trata a legalização das drogas. Dizer que “a sociedade se protegerá contra a violência…” apenas quando os usuários forem “controlados” pelo ente federativo remete ao tempo ditatorial, sem dúvidas.
    O que a sociedade almeja não é ter que se proteger dos usuários e suas alucinações, mas sim viver em um país livre, como proclamado pela CF. É lamentável que a mídia consiga manipular um número incontável de pessoas, levando-as a acreditar em “consumo sustentável” de drogas. Realmente, o discurso do autor é belo e carregado de bondade. Todavia, ao que tudo indica ele apenas esqueceu das proporções do Brasil, das fronteiras e da miserabilidade que assola grande parte da população. Outrossim, é nítido que o autor não conhece criminosos usuários de entorpecentes, infelizmente (mas felizmente para ele).

  2. Guerra às Drogas: A Terceira Guerra Mundial incentivada pela mídia.

    Pedimos que parem de fomentar e incentivar esta TERCEIRA GUERRA MUNDIAL que vivemos desde que a ONU junto com todos os seus países signatários declararam em 1961, através da pressão americana, a GUERRA AS DROGAS a qual até hoje não foi colocado um fim. Já são 52 anos de guerra com um número sem precedentes de óbitos. A MIDIA MUNDIAL tomou uma posição em favor desta guerra criando sensacionalismo, propagando mentiras e inverdades além de esconder fatos e notícias que mudariam o curso desta guerra sangrenta fundamentada como sempre nos lucros.
    A criminalização das drogas tem como efeito colateral: morte, prisões, corrupção e insegurança. Populariza de uma forma generalizada a criminalidade e em consequência: a violência. Basta apenas estudar um pouco sobre o que ocorreu na Guerra Civil Americana da Lei Seca que se estendeu por 13 anos com uma explosão enorme da criminalidade, corrupção e óbitos. O degrau para a criminalidade fica muito baixo visto que basta um individuo vender ou usar uma substância que existe uma grande demanda para ele se tornar um inimigo do Estado, um bandido. Esta popularização e pulverização da criminalidade é uma fábrica de criar marginais e bandidos onde toda a sociedade perde.
    As drogas deveriam nos países democráticos ser vendidas, para maiores de idade, em drogarias ou farmácias. Produzidas por empresas farmacêuticas onde seria possível controlar a pureza das substâncias exigindo dos usuários uma avaliação periódica de um médico onde seriam informados sobre os riscos do uso, formas de tratamento e redução de danos e aí sim receberiam a sua receita para compra. Os governos arrecadariam as suas altas taxas de impostos que deveriam ser destinadas para a saúde, educação, propaganda negativa e tratamento. Com este modelo falido de guerra, esta gigantesca verba vai para a marginalidade criando uma enorme e rica estrutura de crime e corrupção enquanto que a sociedade e o estado só recebem os custos e as mazelas.
    As drogas nunca deveriam ser motivo de ação militar ou policial. É uma questão de doença e saúde com o tratamento baseado na medicina e apoio religioso. A mídia deveria propagar e mostrar estas verdades visto que a mesma tem um papel importantíssimo na estabilidade mundial. A comunicação é fundamental para a paz: mídia é comunicação de massa.
    Pedimos aos profissionais de mídia do mundo inteiro que se informem e divulguem as verdades e os números desta guerra. Segue alguns documentários sérios e informativos sobre o tema que vocês, profissionais de mídia, têm obrigação de assistir por humanidade. Vamos incentivar a paz e a harmonia chega de sensacionalismo, mentira e falso moralismo.

    “Quebrando o Tabu” – Fernando Grostein Andrade.
    “Cortina de Fumaça” – Rodrigo Mac Niven.
    “Maconha a Cura do Câncer” – original: “What if Cannabis Cured Cancer?” – Len Richmond.
    “O Sindicato, O Negócio Por Trás do Barato” – original: “The Union: The Business behind Getting High” – Brett Harvey.
    “Run From the Cure, A História de Rick Simpson”.

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