“Da origem das religiões.- Como pode alguém perceber a própria opinião sobre as coisas com uma revelação? Este é o problema da origem das religiões: a cada vez havia um homem no qual esse fato foi possível. O pressuposto é que ele já acreditasse em revelações. Um dia ele tem, subitamente, o seu novo pensamento, e o regozijo de uma grande hipótese pessoal, que abrange o mundo e a existência, surge tão fortemente em sua consciência, que ele não ousa sentir-se criador de uma tal felicidade e atribuiu a seu Deus a causa dela, e também a causa da causa desse novo pensamento: como revelação desse Deus. Como poderia um homem ser autor de uma tal beatitude? – é o que reza a sua dúvida pessimista. E há outras alavancas agindo ocultamente: o indivíduo reforça uma opinião para si mesmo, por exemplo, a considerá-la uma revelação; ele apaga o hipotético, ele a subtrai à crítica, mesmo à dúvida, e torna-a sagrada. Assim nos rebaixamos a não mais do que órgão, é certo, mas nosso pensamento acaba por triunfar, como pensamento de Deus – esta sensação, de como isso permanecer enfim vitorioso, sobrepuja a sensação de rebaixamento. Também um outro sentimento atua nos bastidores: quando alguém eleva seu produto acima de si mesmo, aparentemente desconsiderando seu próprio valor, há nisso um júbilo de amor paterno e orgulho paterno, que tudo compensa e mais que compensa.” Nietzsche, in Aurora. São Paulo: Companhias das Letras, 2004, aforismo 62, p. 50.

A Bíblia é um livro fabuloso, mítico [Do gr. m~thos, ‘fábula’, pelo lat. Mythu.].

E o é por conter todos os elementos de uma fábula, quer porque recorre a figuras míticas (deuses, anjos, demônios, heróis, dragões etc.), quer porque apela, frequentemente, à linguagem figurada (metáforas, parábolas etc.), quer porque não retrata fatos reais, mas imaginários, quer porque narra grandes histórias, quer porque encerra lições morais. E como toda fábula, admite diversas interpretações.

Mas, por se tratar de uma coletânea de contos míticos/literários, certamente o modo menos adequado de entendê-la é interpretá-la ao pé da letra, como se os fatos nela narrados tivessem realmente (historicamente) acontecido ou acontecido exatamente como constam dos livros. Como diz Paulo, a letra mata, mas o espírito vivifica (2 Coríntios 3).

Justamente por isso, quando se diz que “a fé remove montanhas” (1 Corintíos 13), não se quer dizer que, se quisermos, removermos as montanhas do Himalaia para a Bahia, por exemplo, mas que, se acreditarmos em nós mesmos e em Deus, somos capazes de vencer dificuldades aparentemente invencíveis. Se, ao contrário, nos faltar a fé em nós mesmos e em Deus, perderemos a batalha antes mesmo de começá-la. Quando se afirma que é “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (Mateus 19:24), não se pretende que os ricos se desfaçam de todos os seus bens em favor dos pobres, pois seria estupidez e em nada os ajudaria, mas condenar a avareza e tudo que isso implica: trabalho escravo, salários aviltantes, indiferença para com o outro etc. “E o rico deve orgulhar-se caso passe a viver em condição humilde, porque o rico passará como a flor do campo” (Tiago 1:10).

Assim, não é preciso apelar à ciência para perceber que jamais houve, tal como descrito, um Adão e Eva que foram tentados por uma serpente1, um Jonas que passou três dias e três noites nas entranhas de um peixe, nem uma torre de Babel que deu origem aos diversos idiomas que conhecemos. Tampouco existiu quem vivesse tantos anos: Adão, 930 anos [Gn 5:5]; Sete, 912 [Gn 5:8]; Enos, 905 [Gn 5:11]; Cainã, 910 [Gn 5:14]; Maalalel, 895 [Gn 5:17]; Jarede, 962 [Gn 5:20]; Metusalém, 969 [Gn 5:27]; Noé, 950 [Gn 9:29] etc. E a jumenta de Balaão nunca falou com ele [Nm 22:28-30], exceto num sentido figurado.

Como demonstra Joseph Campbell, tudo isso é mitologia recontada a partir de mitos mais antigos. O mundo – escreve Joseph Campbell – está repleto de mitos de origem e todos são falsos do ponto de vista dos fatos. Interpretar um poema como crônica da realidade é – para dizer o mínimo – perder o essencial. O antigo testamento não resultou do talento literário de Deus, mas do homem e, como tal, não da eternidade, mas de uma época e, concretamente, de uma época muito conturbada.2

A religião (judaica, cristã, islâmica, hindu, budista etc.) é, pois, a própria mitologia com outro nome.3 Ou, ainda, mitologia é a religião dos outros (povos e indivíduos).

Em suma, os livros tidos por sagrados não são obra de Deus, mas obra dos homens, pois foram produzidos por homens e para os homens; e são os homens, e não Deus, que os pretendem sagrados e combatem por isso. Os deuses (ao menos os que conhecemos) são, enfim, criados à imagem e semelhança do homem, e não o contrário. E isso também vale para o Deus de Espinosa e outros tantos.

Apesar disso, uma parte importante dos crentes interpreta os textos religiosos literalmente, isto é, como se os fatos tivessem ocorrido precisamente como descrito. E muitos estariam dispostos a morrer e matar pelo “Senhor dos Exércitos”.

Por que é assim? Por que se toma tais fábulas tão ao pé da letra?

Há muitas explicações possíveis.

A primeira: em geral, só levamos a sério a religião que nos foi ensinada. Não cultuamos deuses ou religiões que desconhecemos ou que conhecemos só por ouvir falar. Somos indiferentes e, por vezes, desprezamos a religião alheia, tomando-a como superstições ou crendices. Assim, por exemplo, é comum ver, aqui no Brasil, evangélicos condenarem o candomblé e a umbanda. A religião é, por conseguinte, um elemento cultural: aprendemo-la como aprendemos nosso próprio idioma.

A segunda: pessoas há com predisposição para acreditar em Deus, e outras não. As primeiras seriam crentes em qualquer lugar do mundo: budistas, se nascidas na China; xintoístas, se socializadas no Japão; muçulmanas, se árabes. Também por isso, não raro associam tudo que lhes ocorre à providência divina.

A terceira: somos herdeiros de uma cultura que desconhece ou abomina o pensar crítico, especialmente quando se trata de questionar a religião dominante. Somos produtos de uma socialização/educação fortemente opressora. Nesse contexto, ser ateu ou agnóstico soa como transgressão ou maldade. E a religião é uma forma poderosa de manter o status quo.

A quarta: assim, frequentemente as pessoas carecem de senso crítico e jamais questionaram a tradição em que estão inseridas, especialmente a tradição religiosa, inclusive porque tal é, em geral, condenado. O verdadeiro crente é obediente e não duvida. “Mas aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado”.
(
Romanos 14:23).

A quinta: a fé significa para o crente, em geral, conformismo, bem-estar e, eventualmente, sucesso e prosperidade. Nada se tem a ganhar, em princípio, sendo ateu ou agnóstico.

A sexta: no fundo, é irrelevante, para quem crer, se as escrituras são ou não uma fábula, se reproduzem ou não mitos antigos. O que de fato importa não é propriamente a fé, mas o que se pode obter por meio dela. Não se ama um Deus fraco; ama-se sempre um Deus poderoso, isto é, que pode recompensar (vida eterna etc.) a obediência e o sacrifício e intervir em nosso favor. “Deus é fiel para os que o amam e guardam os seus mandamentos” (Deuteronômio 7:9). Afinal, não amamos algo por ser verdadeiro, mas por aumentar o nosso sentimento de poder.

A sétima: a fé funda-se no medo, medo de ser mal visto, de ser excluído socialmente, de adoecer, de queimar no fogo do inferno e tudo mais. É preciso ser temente a Deus.

A oitava: a religião é uma forma importantíssima de exercício de poder. Quem fala em nome de Deus pode praticamente tudo ou quase tudo. Obedecer a Deus é, pois, obedecer a quem pode legitimamente invocar a sua autoridade e agir em seu nome.

A questão mais relevante, porém, parece residir em que o elemento mítico está presente em todas as formas de expressão do homem, e não só na religião: a linguagem, a música, a literatura, a política, o direito e a moral. Ou seja, parafraseando Ernst Cassirer, cabe dizer: “o homem é um animal mítico”.

Afinal, como escreveu Max Müller, “mitologia, no mais elevado sentido da palavra, significa o poder que a linguagem exerce sobre o pensamento, e isto em todas as esferas possíveis da atividade espiritual”.4

 

1De acordo com Joseph Campbell, trata-se, em verdade, de uma divindade antiga:“Na cena de Eva junto da árvore, por exemplo, nada é dito para indicar que a serpente que apareceu e falou com ela era uma divindade legítima, reverenciada no Levante durante pelo menos sete mil anos antes da composição do Livro do Gênese”. As Máscaras de Deus. Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 2004, p. 18.

2As Máscaras de Deus. Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 2004, p. 87.

3Como escreve Ernest Cassirer, “não há diferença radical entre o pensamento mítico e o pensamento religioso. Ambos se originam dos mesmos fenômenos fundamentais da vida humana. No desenvolvimento da cultura humana não podemos fixar um ponto onde termina o mito e a religião começa. Em todo curso da história, a religião permanece indissoluvelmente ligada a elementos míticos e repassada deles.”Antropologia filosófica. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1972, p. 143.

4Apud Ernst Cassirer. Linguagem e mito. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 19. De acordo com Cassirer (cit., p. 64), “a consciência teórica, prática e estética, o mundo da linguagem e do conhecimento, da arte, do direito e da moral, as formas fundamentais da comunidade e do Estado, todas elas se encontram originariamente ligados à consciência mítico-religiosa”.